Artigos
Por
que o diploma
Publicado
em 3 de outubro de 2008
Jayme Copstein*
A
ação no STF, extinguindo a exigência do diploma
universitário para o exercício profissional do Jornalismo
representa vários passos para trás. A única hipótese
de prosperar a tese, de que viola os artigos 5º (liberdade de expressão)
e 220 (liberdade de informação jornalística) da
Constituição Federal, é incluir também a
inconstucionalidade da exigência de diploma específico
para o exercício da medicina, da odontologia, do direito, de
qualquer profissão universitária. Ou seja, voltar a 1911,
como pretendeu o gaúcho Rivadávia Corrêa, então
ministro do Interior e Justiça do governo Hermes da Fonseca,
em sua reforma do ensino: “A instrução superior
e a fundamental, difundida pelos institutos criados pela União,
não gozarão de privilégio de qualquer espécie”.
Ao
pé da letra, teríamos também de extinguir todos
os tribunais, da 1ª instância ao próprio STF: exigir
diploma de direito e concurso para magistratura cerceia nosso direito
de pensar, exprimir e informar o que pensamos das leis e das sentenças
dos juízes, fazendo nossas próprias leis e aplicando nossas
próprias sentenças.
Aí
reside o equívoco de quem deseja revogar a regulamentação
do Jornalismo. Ela não proíbe que alguém pense
o que bem lhe aprouver a respeito de tudo e que manifeste livremente
seus pontos de vista, através dos jornais, das emissoras de rádio
e tevê e da Internet. Todos os veículos reservam espaços
generosos para colaboradores, convidados ou não, aos quais basta
enviar a matéria em originais legíveis, respeitadas as
normas de linguagem e a limitação do espaço. Da
mesma maneira, a interação, através das cartas
de leitor, do e-mail dos internautas ou telefonemas de ouvintes e telespectadores
são parte importante das atividades do Jornalismo de hoje. Há
até quem, antes de estabelecer a pauta para a cobertura ou o
debate, submeta a questão ao público.
O
que a regulamentação do Jornalismo exige - tal como a
da medicina, da odontologia, do direito, enfim de todas as carreiras
universitárias - é que, como profissão universitária
que realmente é, seja exercida mediante a habilitação
específica em curso superior.
Antes
e depois
Permitam-me
argumentar com depoimento de natureza pessoal: nasci jornalista. Jamais
na minha vida quis ser outra coisa. Apaixonei-me pela profissão,
sem saber que era profissão, em 1936, quando tinha oito anos
de idade, e ouvi meu tio Maurício, ler em voz alta para a família
a notícia, publicada por “A Razão”, de Santa
Maria, de que Mussolini havia invadido a Abissínia.
Daquele
momento em diante, ao escrever trabalhos escolares, procurava reproduzir
o estilo sucinto e direto daquela notícia, o que me trouxe notoriedade
como “redator” no Colégio Lemos Júnior, de
Rio Grande. Aos 15 anos de idade, quando comecei a carreira profissional,
entrei em conflito com meu pai. A última coisa que permitiria
a um filho seria a profissão de jornalista, na qual superabundavam
“bêbados, caloteiros e cafajestes que não davam para
mais nada".
Isso
foi em 1943, antes da criação dos cursos de comunicação
social e da primeira regulamentação, a de 1967, de cuja
luta Lucídio Castelo Branco, então presidente do Sindicato
da categoria no Rio Grande do Sul teve desempenho decisivo. Foi o que
trouxe dignidade à nossa profissão. Não temos nem
como nem porque renunciar a ela. Tenho certeza de que meu pai, hoje,
estaria orgulhoso do trabalho do seu filho e também da sua bisneta,
Joyce, aluna da PUC, já cumprindo estágio na Rádio
Gaúcha.
Ele
reservaria seus adjetivos depreciativos a quem quisesse derrubar a regulamentação
profissional. (...)
Ainda
o diploma
A
regulamentação do exercício profissional do Jornalismo,
levantado ontem nesta coluna, despertou o debate entre os leitores de
O Sul e também entre os usuários de www.jaymecopstein.com.br
(seção “Fórum”), onde as opiniões
igualmente são transcritas. A discussão do tema permanece
aberta.
Fábio
Costa (Porto Alegre) tece estas considerações:
“Em seu artigo em O Sul, intitulado "Porque o diploma",
notei um conflito de idéia. Ao mesmo tempo que defende a exigência
do diploma universitário para o exercício profissional
de Jornalismo, diz ter nascido jornalista.
É nesse ponto que gostaria da reflexão do amigo, se assim
me permite chamá-lo. Acredito que exista uma confusão
generalizada quanto a essa questão. Paixões estão
falando mais alto do que a razão. Na minha opinião, não
há qualquer problema em exigir o diploma de jornalista.
O que não se pode é proibir profissionais competentes
na área, mesmo sem diploma, exercerem a profissão. Trabalho
numa mídia forte (Emissoras de Rádio, TV, Revista e internet)
e não possuo o referido diploma. Oriento jovens recém
saídos das faculdades e que não sabem escrever uma linha,
mas que possuem o referido documento. O prezado amigo nasceu jornalista,
pois escrever é dom. Seu cabedal de cultura me exime de relatar
vários grandes jornalistas que não passaram
pelos bancos escolares. O senhor há de concordar comigo que o
ensino hoje oferecido nas Universidades está longe de formar
bons profissionais. O senhor vem do tempo que não se exigia o
diploma, mas seu talento, competência o fez um grande e respeitado
jornalista. Seu caso, assim como de tantos outros,
deveria ser bandeira para se encontrar um meio termo nessa questão.
Continuaríamos a exigir o diploma, mas, em contrapartida, buscaríamos
mecanismos de averiguação que atestassem a competência
de jornalistas sem o referido diploma. Fico a imaginar
seu talento de jornalista reprimido, caso tivesse começado
a escrever depois de 1967. Abraço, Fábio Costa.”
Comentário:
Descontada a generosidade das palavras a respeito do colunista, o Fábio
Costa tem razão no que argúi: a inexistente seleção
de talentos e a deficiente formação dos profissionais
da área. O problema, contudo, não é só dos
cursos de comunicação social. É de todo o nosso
ensino. Deveria ser a prioridade no debate da política educacional,
mera ficção no Brasil de hoje, sem a qual não se
constrói um país e cujos resultados não se colhem
antes de duas ou três décadas. Não é, porém,
o que está em julgamento no STF. Lá o que foi pedido é
a pura e simples extinção da regulamentação
do exercício profissional do Jornalismo. A pergunta
que se impõe é: por que só o Jornalismo?
É uma profissão inferior à medicina, à engenharia,
à odontologia, ao direito?
Nem
como anedota, tem graça.
James
Masi, de Porto Alegre, argumenta:
“Você sabia que para fazer programas de computador, websites,
etc. não é necessário diploma de Bacharel em Informática?
Acredito que é uma profissão bastante técnica,
tanto quanto é o Jornalismo, você não
acha? Entretanto, estamos aí, com a Internet "bombando"
em todo Brasil e muita, mas muita gente mesmo que trabalha na área
jamais pisou na Universidade, quanto mais num curso de Informática
ou Ciência da Computação. Se eu sou a favor de que
seja exigido diploma? Não! Sobrevive na área quem é
bom, independentemente de diploma. Acho que no Jornalismo
também isso é possível. Já em Medicina,
um erro técnico pode levar à morte. Não é
a mesma coisa. Tanto em Jornalismo como Informática,
o erro sempre pode ser detectado previamente sem seqüelas, e isso
é que as torna diferente da Medicina ou Engenharia Civil, por
exemplo.”
Comentário:
Obrigado ao James Masi pela participação. Apenas contraponho
que não se exige diploma universitário de quem deseje
fazer um jornal, e há tantos jornais de bairro, de agremiações
comunitárias, e também emissoras comunitárias quanto
há páginas na Internet. Talvez haja menos por questão
de custos e complicações tecnológicas. Em compensação,
duvido que alguém possa ser analista de sistemas sem formação
universitária. Apenas alerto ao James Masi que erros na informática
ou no Jornalismo também podem conduzir a tragédias,
tal qual a Medicina. Já vi gente induzida ao suicídio
por notícia de jornal. Deve haver exemplos similares em sua área.
(...)
*
Jayme Copstein, colunista do jornal O Sul. As colunas foram publicadas
nos dias 29 e 30 de setembro.
Formar
não é envelopar
Publicado
em 11 de agosto de 2008
Gilson Piber e Antonio Fausto Neto*
A noite de 8 de agosto foi de festa pela conquista
alcançada por nove jovens que colaram grau de bacharel em Comunicação
Social, habilitação Jornalismo,
na Unifra, em Santa Maria (RS). Foi mais uma etapa
vencida, após quatro anos de atividades teóricas e práticas
nos bancos universitários.
As
mutações havidas no ambiente midiático, com uso
intensivo de tecnologias convertidas em meio, transformam os processos,
as interações, o modo de ser da mídia e, principalmente,
a identidade das profissões na área.
No
momento em que esses nove jovens receberam, da Universidade, a autorização
para ir em busca do mercado de trabalho, numa segunda aventura, as possibilidades
de exercício da profissão de jornalista
se encontram ameaçadas.
Tal
fato ocorre na medida em que se discute, no Supremo Tribunal Federal
(STF), a observância da exigência do diploma como condição
de exercício da profissão.
Este
fenômeno é um retrocesso, pois o reconhecimento do diploma
é um avanço. Especialmente numa sociedade que se especializa
e, ao mesmo tempo, requer que certificados de reconhecimentos sejam
dados àqueles que se capacitam para o exercício das diferentes
profissões.
Não
se trata apenas de um reconhecimento cartorial, mas de um treinamento
que foi ministrado àqueles que se candidatam ao Jornalismo e
que, neste caso, receberam da universidade o 'passe' para fazerem novos
rituais.
O
Jornalismo sempre se preocupou com a qualificação
dos seus quadros, desde o momento dos autodidatas até o tempo
atual, circunstância em que os jovens que egressam da Universidade
são acolhidos pelo mercado para ocuparem as novas matrizes de
funcionamento da mídia.
A
formação universitária nunca vai repetir o que
dela exige o mercado, e se equivocam aqueles que julgam que a universidade
deve ser um apêndice dos mercados profissionais. Seu status é
o de perseguir outros tempos, produzir reflexões e ensinamentos
acerca dos ofícios para os quais preparam ética, intelectual
e humanisticamente futuros quadros a serviço da sociedade.
A
formação, que hoje os tempos da midiatização
exige, pede um processo integrado entre mercado, entidades profissionais
e universidade, cada um com a sua especificidade. Mas, da parte da Universidade,
o que marca a sua ambição de diplomar não é
a de expedir um papel, mas enfatizar que este papel tem uma função
simbólica: pedir reconhecimento daquele lugar que forma o jornalista.
Mas, também, anunciar publicamente que, graças aos seus
processos formativos, a universidade credencia aqueles que dela querem
fazer uso a serviço de uma missão social que, neste caso,
é o Jornalismo.
Aos
novos jornalistas, pedimos que não esmoreçam
diante das dificuldades. Especialmente dos tempos sombrios das condições
de trabalho impostas pelas mutações que a noticiabilidade
sofre hoje, em decorrência de mudança nos processos produtivos.
Tenham noção destes tempos para trilharem as possibilidades
de fazer melhor os tempos de amanhã, onde neles os recém-formados
vão estar nesta profissão.
Antes,
porém, é preciso entender que, a despeito das dificuldades
que serão enfrentadas, somente os novos profissionais poderão
executar a tarefa de 'analistas da jornada' que serão convidados
a exercer depois da formatura. Conforme o jornalista
e escritor José Marques de Melo, "na medida em que o jornalista
assume o papel de agente social, responsável pela observação
da realidade, ele se torna mediador entre os fatos de interesse público
e a cidadania".
O
diploma não é um controle de qualidade. É a expressão
simbólica emitida por um lugar cuja vocação é
formar. Formar não é envelopar, mas instituir referências,
autorizar pessoas a fazer de suas normas e dos seus preceitos regras
e fundamentos que estejam a serviço de um modo de agir, mas também
a serviço da sociedade. Jornalistas para o mercado
sim, mas a serviço da sociedade e reconhecidos pela singularidade
da formação universitária.
Outro
conselho aos novos jornalistas: nunca percam a esperança.
Acreditem que é possível fazer um Jornalismo
sério, responsável, justo, ético e plural. Tenham
confiança na nova caminhada, que os impulsiona para outras oportunidades,
esperamos também exitosas. Observem, analisem, descrevam, relatem,
enfim, coloquem em prática os ensinamentos adquiridos e as experiências
compartilhadas com os colegas, professores e técnicos. Façam
valer o diploma conquistado, respirem Jornalismo e
sejam felizes na profissão que escolheram.
* O artigo é uma adaptação do discurso
proferido na formatura da quarta turma de Jornalismo da Unifra, no dia
8 de agosto de 2008, em Santa Maria (RS). Foi escrito pelos jornalistas
e professores da Unifra Gilson Piber - paraninfo, e Antonio Fausto Neto
- patrono.
Liberdade
de expressão e regulamentação profissional
Publicado
em 29 de julho de 2008
José Carlos Torves*
No
ano em que estamos comemorando 200 anos da Imprensa
no Brasil e 100 anos da ABI - Associação Brasileira de
Imprensa, primeira organização de jornalistas
no país, estamos às voltas com o julgamento da nossa regulamentação
profissional (Decreto-Lei 972/69) pela mais alta corte do país
- STF (Supremo Tribunal Federal), sob a alegação de que
não foi recepcionado pela Constituição Federal,
aprovada em 1988 e portanto fere a liberdade de expressão.
Que liberdade de
expressão? Será essa que o IV Congresso Brasileiro de
Publicidade (liberdade de expressão comercial) conseguiu espaços
generosos nos principais noticiários do país? Essa liberdade,
não passa de um 'jeitinho brasileiro' de confundir a opinião
pública sobre a liberdade de expressão prevista na Constituição.
Essa, sim, ampla e irrestrita. Da mesma forma que tentam confundir a
'liberdade de expressão comercial' com liberdade de expressão,
o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São
Paulo, que também é parte do processo contra a nossa regulamentação,
quer fazer crer que a regulamentação profissional dos
jornalistas inibe a liberdade de expressão.
Antes de focar nas
origens dessa situação, em que nos encontramos, cujo mérito
deverá ser julgado nesse segundo semestre de 2008, é bom
voltarmos no tempo para que a história faça justiça
com os jornalistas, que lutaram e lutam na defesa da
regulamentação profissional e da formação,
como forma de acesso ao exercício do Jornalismo.
Em 1908, quando
da eleição da primeira diretoria da ABI, o presidente
eleito, Gustavo de Lacerda, repórter, em seu pronunciamento de
posse, colocava como objetivo prioritário a luta por uma regulamentação
profissional e uma formação específica em Jornalismo.
Gustavo, que não tinha o equivalente ao segundo grau de hoje,
sentia a necessidade não só da formação,
mas também da regulamentação, justamente para qualificar
o Jornalismo da época, exercido na maioria das
redações por pessoas desqualificadas e com interesses
pessoais, financeiros e políticos sendo colocados acima dos princípios
éticos da profissão.
Também em
1918, no primeiro Congresso Nacional dos Jornalistas, no Rio
de Janeiro, tinha como temário: 1) da profissão
de Jornalista - direitos dos profissionais de Imprensa,
combatendo-se o amadorismo jornalístico; 2) da ação
da Imprensa; 3) da identidade profissional e escola
de Jornalismo; 4) da liberdade de Imprensa;
5) história do Jornalismo; 6) diversos assuntos.
Este quadro perdurou
até 1938, época em que tivemos a primeira regulamentação,
a necessidade de registro da profissão no Ministério do
Trabalho. Em 1949, editamos o nosso primeiro código de ética.
No entanto, a categoria continuou lutando pelo aperfeiçoamento
da legislação que regulamentava a profissão, com
as funções e a forma de acesso às redações.
Em 1968, reformulamos
o nosso código de ética e continuávamos tentando
aprovar no Congresso Nacional o Projeto da regulamentação.
Esse impasse permaneceu até 1969, quando ocorreu o Congresso
Nacional dos Jornalistas em Teresina,
no Piauí. O Ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, esteve presente
na abertura e foi bombardeado por discursos de jornalistas
defendendo a regulamentação. Diante do mal-estar que se
criou, o governador do Piauí, Ovídio Nunes, resolveu marcar
um jantar de confraternização entre o ministro e o presidente
da Fenaj, Lucídio Castelo Branco. Embora a manifestação
inicial do ministro ser contrária a nossa regulamentação,
no final da reunião reconsiderou considerando justa a demanda
dos jornalistas se comprometendo a ajudar na aprovação
do projeto pelo congresso.
Não contávamos
com os fatos graves que se precipitaram um mês após esse
encontro. O presidente Costa e Silva adoeceu, foi afastado do cargo,
e substituído por uma Junta Militar que editou o AI-5 e fechou
o Congresso Nacional, acabando com nossas esperanças. Qual não
foi a surpresa, ao recebermos na Fenaj, à época no Rio
de Janeiro, um telegrama do ministro Jarbas Passarinho, informando
que a Junta Militar havia editado o Decreto-Lei 972/69, de 17/10/1969,
regulamentando a nossa profissão. Portanto o Decreto-Lei não
foi um presente da Junta Militar para os jornalistas,
mas resultado de uma luta da categoria de longos anos, desde 1939, e
que acabou se concretizando num momento de exceção do
país, por mera coincidência conjuntural.
Em janeiro de 1979,
o presidente Ernesto Geisel extingue o AI-5 e, em março, o Ministro
do Trabalho, Arnaldo Prieto, edita o Decreto-Lei 83.284, atualizando
a regulamentação dos jornalistas, sem
levar em conta as contribuições encaminhadas pela Fenaj,
redefine a exigência do diploma e acaba com o estágio de
Jornalismo.
Antes de chegarmos
até 2001, quando então a juíza substituta da 16ª
Vara Cível da Justiça Federal de São Paulo, Carla
Rister, concede tutela antecipada acabando com a obrigatoriedade da
formação superior em Jornalismo para
o exercício da profissão, atendendo iniciativa do Ministério
Público Federal, através do procurador da República
André de Carvalho Ramos, sob a alegação de que
tal exigência fere a liberdade de expressão no país,
é bom lembrarmos que o patronato do setor de comunicações,
liderado pela Folha de S. Paulo, durante o período de 1979-2001,
fez campanha permanente contra a regulamentação da profissão
e a exigência da formação específica em Jornalismo.
E praticamente sempre foi contra, conforme relata Alberto Dines em 'O
Papel do Jornal - Uma releitura', Editora Summus, 5ª edição
em diante (1986), no apêndice sobre a questão do diploma
(pp.147-157).
A luta dos jornalistas
brasileiros na defesa de sua regulamentação profissional,
esta completando 70 anos, sua historicidade não pode ser desconsiderada
e ser tratada como um tema que data da Ditadura Militar, como se tem
notado nas manifestações daqueles que são contrários
a sua manutenção.
Em primeiro lugar
quero focar inicialmente a discussão, apenas na regulamentação
profissional, pois misturar com o CFJ serve apenas para confundir o
leitor e não contribuiria com o debate ora em questão.
Como anteriormente
já demonstrei historicamente, a luta da categoria foi pela regulamentação
profissional e isto é que está em jogo neste momento no
STF. Conforme a argumentação da juíza Carla Rister,
o fato de tal diploma ter sido editado por Decreto-Lei durante o Regime
Militar não teria sido recepcionado pela Constituição
de 1988. Ponto. Há controvérsias. Temos inúmeras
leis vigentes no país, com origem no mesmo período.
Ainda sobre regulamentação,
nos países europeus, as regulamentações variam,
mas é comum que os jornalistas sejam submetidos
a provas de tempos em tempos, ou a sistemas de seleção
corporativos que lembram as guildas medievais.
Outra questão
importante colocada nos autos: a regulamentação profissional
fere a liberdade de expressão. O argumento é estapafúrdio,
pois confunde liberdade de expressão com o exercício da
profissão de jornalista. É tão
absurdo quanto dizer que todas as pessoas que não escrevem nos
jornais, ou não aparecem no vídeo apresentando notícias
em telejornais, ou não tem voz nos programas jornalísticos
do rádio, têm sua liberdade de expressão cassada.
Se assim fosse, a única forma de garantir a liberdade de expressão
para a sociedade seria que todos os cidadãos praticassem o Jornalismo,
o que até poderia ser muito saudável, observados os parâmetros
deontológicos da profissão, mas é francamente impossível.
E, finalmente, a
questão da formação. O fato de haver a exigência
de um curso superior, como pré-requisito para o exercício
do Jornalismo, tem gerado um discurso rebaixado, de
que a profissão usa o diploma como forma de manter a elite na
Imprensa, já que a maioria da população
brasileira não tem acesso à universidade. É verdade
que poucos tem acesso ao terceiro grau, mas não é só
no Jornalismo, também em inúmeras profissões.
A razão da defesa do diploma em Jornalismo é
pela qualidade da informação, pela ética e pela
verdade. A verdadeira elite este país é a elite econômica,
ou seja os empresários do setor de comunicações.
Também aqui recorro a história dos jornalistas,
conforme demonstrado, na criação da ABI, pelo seu primeiro
presidente Gustavo de Lacerda, que colocava como prioritário
a criação de uma escola de Jornalismo.
Desde 1947, quando
da fundação da Faculdade Cásper Libero, primeiro
curso de Jornalismo do país, iniciou, até
os dias de hoje, houve um significativo avanço nos estudos e
conhecimento da área. E pelo fato da informação
jornalística ser um elemento estratégico das sociedades
contemporâneas é que o Programa de Qualidade de Ensino
da Fenaj tem sido debatido, aperfeiçoado e apoiado pelas principais
entidades da área acadêmica (como Intercom - Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação;
Abecom - Associação Brasileira de escolas de Comunicação;
Enecos - Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação;
Compós - Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação
em Comunicação; e Fórum de Professores
de Jornalismo). Entretanto, notei que um dos argumentos
mais usados tem sido o número elevado de cursos de Jornalismo
e a análise generalista de que são de má qualidade.
Com o grande número de cursos concordo, mas tornar senso comum
de que os cursos em geral não são bons, discordo frontalmente.
Há exceções, como os cursos de formação
de outras profissões, mas nem por isto se defende que deva haver
uma completa desregulamentação das profissões ou
o retrocesso de que parteiras retornem em condições de
igualdade com médicos, rábulas como advogados e mestres-de-obra
como engenheiros. O que nos compete, enquanto cidadãos, é
a cobrança e a fiscalização do Estado, para que
tenhamos cursos de qualidade e isto a Fenaj tem feito obstinadamente.
É verdade
que o Brasil é um dos únicos países do mundo em
que a regulamentação da profissão é baseada
na exigência do diploma. Mas, o que se deve questionar é
se essa exigência é boa ou ruim, uma vez que as sociedades
não estruturam seus corpos legais e jurídicos simplesmente
copiando o que há nos outros países. O que sabemos é
que em todo o mundo tem aumentado de forma significativa o número
de jornalistas que passaram por uma formação
em curso superior específico. Por outro lado, os donos dos veículos
no Brasil formam um dos grupos mais poderosos, corporativos e privilegiados,
com inúmeras ramificações no parlamento e uma relação
incestuosa com o Estado. Essa situação não se repete
nos países mais desenvolvidos, onde há legislações
rigorosas colocando limites aos poderes dos donos dos meios de Comunicação,
particularmente dos meios eletrônicos. Tudo isso transforma a
exigência do diploma em Jornalismo no Brasil
na forma de garantia da liberdade de expressão para a sociedade,
universalizando o acesso à profissão e impedindo que os
proprietários venham a ser, também, os donos das consciências
dos profissionais que trabalham nas redações.
Nos EUA, mercado
altamente desenvolvido, com forte disputa pelos postos de trabalho,
alia-se à tradição (foi lá que surgiram
os cursos superiores de Jornalismo, no início
do século XX, por iniciativa de um empresário da Imprensa,
Joseph Pulitzer, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque,
que oferecia graduação e mestrado profissionalizante para
os formados em outras áreas).
Faço a defesa
da regulamentação e do diploma, de forma apaixonada, mas
também racional, e não vejo demérito em defender
o que acreditamos com paixão. Também não enquadro
aqueles que são contra como defensores dos interesses patronais,
embora muitos o sejam. O importante é que façamos o debate
dos conceitos, esgrimindo teorias ou não, embora sejamos, de
forma simplista, acusados de corporativos, mas o que há de pejorativo
em ser corporativo, as demais profissões, por acaso, não
são? O que há de errado em cada um defender a sua categoria
profissional? A menos que seja apenas uma acusação leviana
para desqualificar o debate. O importante e essencial é que a
sociedade brasileira é que ganha com este debate.
Bibliografia:
Abramo, Cláudio; A Regra do Jogo; Ed. Companhia das Letras, S.Paulo,
1988
Branco, Lucídio Castelo; Ed. AGE, Porto alegre, 2002
Dines, Alberto; Ed. Summus Editorial; S.Paulo, 1988.
Ferreira, Catarina de Oliveira; Ed.Nova Prova - Escola Superior de Direito
Municipal; Porto Alegre, 2000.
Fenaj, Federação Nacional dos Jornalistas, org; Ed. Universidade
Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002
Genro, Adelmo Filho; O segredo da pirâmide; Ed. Ortiz, Porto alegre,
1997.
Marx, Karl; Liberdade de Imprensa; Ed. LPM; Porto Alegre, 1999.
Sá, Adísia; O Jornalista Brasileiro; Ed. Fundação
Demórito Rocha, 1999.
* José Carlos Torves, diretor da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do RS
Os
200 anos da Imprensa brasileira
Publicado
em 12 de junho de 2008
Paulo Pimenta*
Nesta
sexta e sábado, dias 13 e 14,
será realizado o 33º Congresso Estadual de Jornalistas,
em Santa Maria, que tem a honra de receber a primeira
edição deste evento em cidade do interior do Estado. Promovido
pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do
Sul, o Congresso tem como tema 'O Mundo do Trabalho na Comunicação
- Oportunidades e Ameaças', e se apresenta como um importante
momento de discutirmos o papel da nossa Imprensa e suas relações
com a sociedade.
Neste ano são
celebrados os 200 anos da Imprensa em nosso país.
O próprio objeto que marca seu nascimento é alvo de polêmica.
Alguns defendem que a data deve ser marcada pela fundação
do Correio Braziliense, mensário editado em Londres por Hipólito
José da Costa e remetido clandestinamente ao Brasil por ser crítico
ao regime monárquico de então. Outros consideram que a
marca do nascimento de nossa Imprensa deve ser a publicação
d'A Gazeta do Rio de Janeiro, periódico oficial fundado quando
da chegada da família real portuguesa ao Brasil. O fato indiscutível
é que, até 1808, não possuíamos nenhuma
publicação informativa, sendo estas, inclusive, proibidas.
Após esse
período inicial, com os adventos da Independência (1822)
e da Proclamação da República (1889) nosso país
viu surgir em profusão crescente o número - e a qualidade
- de órgãos de Imprensa nacionais. Com o início
do século XX, em que esse fenômeno se intensificou ainda
mais, chegamos ao cenário de hoje, em que nosso país se
coloca como uma das nações que mais possuem periódicos
informativos em todo o mundo.
Esse fenômeno
de crescimento da Imprensa se relaciona diretamente
ao tamanho da liberdade que cada país possui. Quanto maior a
liberdade de expressão, maior é seu reflexo na existência
de uma Imprensa livre e diversificada.
Sem as mordaças
que nos impunham durante a Ditadura Militar, hoje temos uma Imprensa
que não sofre nenhum tipo de cerceamento ao cumprir seu papel
maior: informar. Atualmente, os limites que se impõem à
Imprensa são aqueles que ela mesma se autodetermina,
seja por sensibilidade própria, seja pela manifestação
da opinião pública.
Nossa Imprensa
não é perfeita, ela carece de constantes aperfeiçoamentos;
porém, isso não é 'privilégio' brasileiro,
é característica mundial. Basta lembrarmos da autocrítica
que importantes órgãos de informação estadunidenses
manifestaram após a segunda invasão do Iraque pelo seu
país. Reconheceram que haviam sido parciais demais, induzindo
ao erro seus milhões de leitores no afã de angariar apoio
social à política belicista do Governo George Bush. E
isso na chamada 'Terra da Liberdade', onde todos se orgulham de possuir
liberdade de expressão absoluta. Se lá isso é possível,
quero crer que aqui não seria um processo prejudicial.
Um bom exemplo disso
é o desempenho de nossa Imprensa nas últimas
eleições presidenciais, quando houve, claramente, uma
manifestação de contrariedade do eleitorado-leitor em
relação ao que era maciçamente defendido pelos
grandes órgãos de Imprensa do país.
Essa discussão
deve ser travada por toda a sociedade, e com coragem: qual é
o limite entre a informação imparcial e a informação
'editorializada'? Que algum órgão queira dar a sua opinião
acerca dos assuntos que noticia, não há problema - para
isso servem os espaços editoriais. Os problemas surgem quando
lemos uma 'notícia' e não conseguimos discerní-la
de um editorial, da opinião, da interpretação dos
fatos de quem os descreve ou de quem emprega o jornalista.
De todo modo, saudemos
a Imprensa brasileira com todas suas imperfeições.
Ninguém sente saudades daquela Imprensa acuada e amordaçada
que víamos em tempos ditatoriais não tão distantes.
Viva a liberdade! Viva a Imprensa brasileira!
* Paulo Pimenta, jornalista e deputado federal
Fidel
Castro: o pequeno Davi enfrenta o gigante Golias - Como se narra a história,
sem retoques, do maior Estadista de todos os tempos
Publicado
em 8 de abril de 2008
Raul
Quevedo *
Personagem
de atuação notável na formação e,
ou, estruturação de um Estado Nacional. Líder.
Homem de saber, honra, coragem e discernimento capaz de construir do
nada, ou do muito pouco, território soberano identificado numa
nacionalidade. O coletivo desse conceito, levado aos extremos do pensamento
político-social no universo de configuração moral
da deontologia, revela a figura de um homem que superou a si mesmo no
universo da grandeza humana, identificando-se na figura de Estadista.
Esse homem chama-se Fidel Castro.
Se
buscar-mos nos escaninhos da história, desde os tempos mais primitivos
a partir dos povos bárbaros: Hunos, alanos, vândalos, francos,
anglos-saxônicos, até os romanos, gregos e troianos; mesmo
os modernos que alcançaram o século XX, serão mínimos
os que poderemos apontar na condição deste vulto da atualidade,
chamado Fidel Castro Ruiz.
Eu
sei - há e serão muitos - os que me acusarão de
ideólogo do comunismo, simpatizante de um ditador. Mas eu pergunto:
quem, em qualquer época da história e em circunstâncias
tão desfavoráveis, ousou tanto. Lutou - como ainda luta
- e venceu obstáculos jamais enfrentados por governantes de grandes
nações, mesmos os grandes impérios?
Minha
tese é provocativa, mais do que temerária. E não
porque sonegue a verdade, mas porque conflita com poderosos interesses
de milhões, que vivendo num universo de fantasia sob a ótica
de ficção do 'bem' implantado pelo imperialismo, condena
tudo e todos que contrariam esse sistema de espoliação
da humanidade.
Para
entender o espírito da minha tese (os bem intencionados naturalmente,
porque os sabujos do capitalismo jamais aceitarão), é
preciso, antes de tudo, analisar o conceito de nação,
de pátria, de nacionalidade. Geograficamente falando. Também
no sentido demográfico, Cuba se enquadra no rol das menores nações
do planeta. Tem 12 milhões de habitantes e cerca de 180 mil quilômetros
de superfície. Equivale a extensão e população
do estado do Rio Grande do Sul.
O
domínio europeu nas Américas começou por Cuba,
em 1492, com a chegada de Colombo. Foi o início da ocupação
e espoliação do Novo Mundo, por uma Europa clerical-imperial,
ainda sob o jugo da Santa Inquisição, habituada as guerras
de rapina. Também foi Cuba o último território
a se emancipar no continente, o que só veio a acontecer, realmente,
467 anos depois, portanto, na metade do século XX. Livre do império
espanhol em 1895, cairia sob o império norte-americano até
1959, quando - só então - liberta-se de duas desgraças:
a ditadura de Batista e dos próprios norte-americanos, que eram
quem realmente governavam.
A
miséria foi de tal forma trágica nesse segundo período,
que muitos pais procuravam manter suas filhas virgens até aos
12 anos, para então ser entregues aos proxenetas, que as vendiam
aos magnatas estadunidenses que lá passavam os fins de semanas,
quando as defloravam por cem dólares.
Vencida
a Revolução, com a fuga de Batista e camarilha, para Miami,
os Estados Unidos passam a tramar contra Fidel Castro e seus revolucionários.
Não queriam admitir - como não querem até hoje
- que a 70 milhas náuticas de suas costas, Cuba se tornasse verdadeiramente
independente.
É
preciso decifrar o enígma que se esconde por detrás da
propalada União das Américas. Na realidade, do ponto-de-vista
da geopolítica, a tradução correta é: As
Américas para os norte-americanos. É esse o espírito
da Doutrina Monroe, que vem desde os idos do século XIX, em 1825.
O México, que foi a primeira vítima, é quem o afirma...
Retorno
ao caso Cuba. Menos de dois anos depois da vitória de Castro
e seus companheiros da Sierra Maestra, o 'democrata' John Kennedy patrocina
a invasão contra-revolucionária, que ficou na história
como a guerra da Ilha dos Porcos, no que resultou em rotundo fracasso
dos norte-americanos, só suplantado, anos depois, pela derrota
no Vietnã.
Deu-se
a partir dali o começo de uma epopéia, que já dura
49 anos. Nos primeiros tempos, para irritação maior do
governo norte-americano, e posteriormente para desespero seu, que tudo
tem feito para derrubar o regime, inclusive com dezenas de tentativas
para assassinar seu líder. Desde a Era Kennedy, no 1960, até
nossos dias, a potência do Norte promove guerra de propaganda
contra Cuba, fortalecendo o odioso bloqueio econômico contra o
pequeno país. Chegou a ponto de criar uma rádio-emissora
para disseminar propaganda mentirosa, usando indevidamente, o nome de
patriota cubano do século XIX, de nome José Marti, assassinado
numa emboscada nunca bem esclarecida, na guerra de Cuba contra a Espanha
em 1895.
Haverá
algum país, por maior e mais rico que seja, que resista por tanto
tempo guerra tão desigual com a maior potência econômica
e militar do universo? E resistir, não apenas sobrevivendo ao
intervencionismo, mas sobreviver com altivez e dignidade de nação
soberana. É preciso entender que até o advento da Revolução
Libertadora, Cuba era simples colônia, espécie de cloaca
dos norte-americanos. Já falei das meninas preservadas virgens
para satisfação das taras sexuais dos magnatas, que as
defloravam por míseros cem dólares. Dinheiro que não
era repassado aos pais das crianças desvirginadas, mas ficava
para os proxenetas donos dos cabarés.
Será
preciso dizer mais para retratar o estágio de miséria
e degradação moral vigente em Cuba ao tempo de Fulgêncio
Batista? Fome, doenças, analfabetismo, prostituição,
roubos, assassinatos, prisões políticas, traições
entre compatriotas. Foi nesse estágio de promiscuidade total
que Fidel Castro e seus companheiros de Sierra Maestra começaram
a reconstrução, apesar dos Estados Unidos, o poderoso
inimigo.
O
revolucionário, o estrategista, o soldado do povo, despe do espírito
guerreiro e veste o uniforme do operário, pois vê urgente
a reconstrução. O mundo vê, então, que a
farda do revolucionário, quando envergada pelo verdadeiro patriota,
é tão construtora quanto o braço do operário
que labora na construção da nação. Este
é o retrato de Cuba, na Era Fidel Castro.
A
partir do nada, do caos de 467 anos de espoliação, primeiro
pela Espanha, depois pelos Estados Unidos; arrasada por uma guerra civil
contra a feroz ditadura de Batista, depois ameaçada pelo imperialismo
e vítima de bloqueio econômico e político, aparece
hoje aos olhos do mundo civilizado como potência moral e social,
sem paralelo na história.
Imperadores,
reis, papas, generais, até simples aventureiros, têm sido
distinguidos com o epíteto de estadista. A história está
cheia desses exemplos que vem da mais remota antiguidade. Muitos deles
deveriam ser rebaixados à categorias de usurpadores, e até
de assassinos. Ora, Estadista, conforme a denominação
já determina, é aquele que consolida um Estado Nacional.
Ele cria (gera) a pátria com capital humano. Esse capital se
manifesta em índices de educação média e
força de trabalho das populações. O capital que
se revela pela capacidade dos indivíduos (saber acumulado), multiplica-se
por si mesmo, independente de geração, ou não,
de bens materiais. Cuba alcançou esse estágio.
Menos
de 50 anos após a Independência Real, aparece aos olhos
do mundo como modelo de Estado Socializado, com governantes e governados
somando liberdade e responsabilidades iguais. Nenhum império
ou república, em qualquer época, pôde ostentar esse
título.
De
Aníbal Barca, considerado o mais destacado estrategista da antigüidade,
que acabou suicidando-se ao ver sua amada Cartago destruída,
passando pelos Césares, Átila, Genghis Kahn, Carlos Magno,
Napoleão, a nenhum deles cabe ostentar o título de Estadista.
Foram apenas célebres guerreiros, sem nenhum outro predicado
que se lhes possa acrescentar no campo das idéias, que os tornem
merecedores da condição de Estadistas.
E
para que não me acusem de radical anti-capitalista, destaco três
vultos, já dos tempos modernos - em pleno século XX -
que os entroso nessa nobre estirpe de Estadistas. São eles: Franklin
Dellano Roosevelt, dos Estados Unidos; Winston Churchill, inglês,
e Getúlio Dorneles Vargas, brasileiro. Roosevelt recuperou a
economia da nação na plena recessão pós-1929,
com a criação do New Deal, um programa de recuperação
econômica de salvação nacional. Churchill comandou
a grande resistência inglesa contra a Alemanha Nazista no início
da Segunda Guerra, dando tempo a que as Nações Unidas
se organizassem para lutar contra o Eixo, então poderoso. E Getúlio
Vargas, ao assumir um país que se digladiava entre si, com coronéis
e chefetes políticos marcando disputas locais, estabeleceu política
de unidade nacional, inclusive incinerando bandeiras que demarcavam
regiões conflagradas por disputas eleitorais do coronelismo que
mandava no país. Getúlio Vargas, a exemplo do cartaginês
Aníbal Barca, imolou-se, por desgosto com os rumos políticos
que o país seguia. É, ao meu ver, nosso único e
verdadeiro Estadista.
* Raul Quevedo, ex-integrante da Comissão de Ética
do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS
Dia
do Jornalista: Hoje nós somos a pauta, em defesa da liberdade de imprensa
e da democracia na comunicação
Publicado
em 4 de abril de 2008
Fenaj
e 31 sindicatos*
Conscientes
da sua função social, na qual se destaca a responsabilidade
de defender o direito fundamental do cidadão à informação
de qualidade, ética, plural e democrática, os jornalistas
brasileiros comemoram o 7 de abril reafirmando as grandes lutas que,
ultimamente, têm marcado a nossa pauta diária:
- a exigência de uma nova Lei de Imprensa e do fim da violência
e ataques contra as liberdades de expressão, do Jornalismo e
dos jornalistas;
- a construção de uma Conferência Nacional de Comunicação
com real participação da sociedade;
- a garantia das conquistas da categoria e o avanço na valorização
da profissão.
Ratificamos a necessidade imperiosa de uma nova Lei de Imprensa em substituição
a um dos entulhos da ditadura, a Lei 5.250 que já existe há
40 anos e além de ultrapassada, não atende aos interesses
do Jornalismo, da categoria e da sociedade. A FENAJ e seus 31 Sindicatos
filiados defendem a imediata aprovação do PL 3.232/92,
o chamado substitutivo Vilmar Rocha, que dorme na Câmara dos Deputados
há mais de 10 anos, pronto para a votação em plenário
desde agosto de 1997.
Conclamamos outras entidades representativas da sociedade e a categoria
dos jornalistas como um todo para aderirem à campanha que a Federação
e os Sindicatos dos Jornalistas já desenvolvem, com o objetivo
de sensibilizar o Congresso Nacional e os parlamentares federais em
cada estado para a urgência de revogar a lei atual e substituí-la
por uma nova e democrática Lei de Imprensa.
Acreditamos que a aprovação desta nova Lei faz parte das
nossas lutas-maiores pela liberdade de imprensa e democracia na comunicação
no Brasil, que vêm sofrendo ataques através das mais diversas
formas de violência contra o Jornalismo e os jornalistas: censuras
e cerceamentos econômicos, políticos, sociais e morais
externos ou pelos patrões, intimidações, perseguições,
assédios judiciais, agressões verbais e físicas
por agentes públicos e privados descontentes com a cobertura
jornalística sobre seus atos e interesses.
Reafirmamos que igualmente é nossa tarefa cotidiana - e na qual
também colocamos imenso empenho - construir a realização
de uma Conferência Nacional de Comunicação ampla,
democrática, com efetiva interferência da população
brasileira. Uma Conferência que envolva representação
da sociedade civil, do governo e do empresariado, com três eixos
temáticos: meios de comunicação, cadeia produtiva
e sistemas de comunicação.
Neste 2008, quando celebramos 200 anos de imprensa no Brasil, 70 anos
da nossa primeira regulamentação profissional, 100 anos
de fundação da ABI e 90 anos do primeiro congresso nacional
da categoria, também assinalamos como agenda diária dos
jornalistas a denúncia do arrocho salarial, do desemprego e da
precarização das relações trabalhistas e
a reivindicação de melhores condições de
trabalho. Com o mesmo peso, pautamos a defesa da obrigatoriedade da
formação universitária especifica, um dos pilares
da nossa regulamentação, e da constituição
de um Conselho Federal dos Jornalistas que, como os demais conselhos
profissionais existentes no país, garanta à nossa categoria
a auto-regulação da profissão.
A FENAJ e seus Sindicatos, neste 7 de abril de 2008, nosso Dia, parabenizam
os jornalistas do Brasil - profissionais e professores -, além
dos estudantes de Jornalismo. Celebramos com vocês e com a sociedade,
cujo direito à informação é a razão
maior das nossas grandes e pequenas lutas, as vitórias já
alcançadas ao longo destes 200 anos de imprensa no país.
Ao mesmo tempo, fazemos uma convocação: pelo papel social
desempenhado pelo Jornalismo e jornalistas, continuemos firmes nas batalhas
pelo fortalecimento e valorização da profissão,
pela liberdade de imprensa e democracia na comunicação.
Brasília, 7 de abril de 2008
* Fenaj - Federação Nacional dos Jornalistas
Sindicato dos Jornalistas do Acre
Sindicato dos Jornalistas de Alagoas
Sindicato dos Jornalistas do Amapá
Sindicato dos Jornalistas do Amazonas
Sindicato dos Jornalistas da Bahia
Sindicato dos Jornalistas do Ceará
Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal
Sindicato dos Jornalistas de Dourados
Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo
Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro
Sindicato dos Jornalistas de Goiás
Sindicato dos Jornalistas de Juiz de Fora
Sindicato dos Jornalistas de Londrina
Sindicato dos Jornalistas do Maranhão
Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso
Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso do Sul
Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais
Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro
Sindicato dos Jornalistas do Pará
Sindicato dos Jornalistas da Paraíba
Sindicato dos Jornalistas do Paraná
Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco
Sindicato dos Jornalistas do Piauí
Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte
Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul
Sindicato dos Jornalistas de Rondônia
Sindicato dos Jornalistas de Roraima
Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina
Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
Sindicato dos Jornalistas de Sergipe
Sindicato dos Jornalistas de Tocantins
Jornalista
e leitor, dois anônimos com objetivos comuns
Publicado
em 4 de abril de 2008
Jorge
Correa*
Tenho
observado com atenção o leitor de jornal, o ouvinte de
rádio e o telespectador de TV. Na satisfação ou
no desconforto com alguma notícia, o que lhe importa é
receber um produto com qualidade, feito com imparcialidade e ética.
Em muitas ocasiões, pouco importa quem é o autor do trabalho.
Para este, especialmente se atua na mídia impressa, é
essencial desempenhar uma tarefa que satisfaça seu leitor, também
um desconhecido.
Nada é mais
gratificante para o jornalista do que pegar o bloco de anotação
e a caneta, deixando brotar idéias na cabeça, independente
da pauta a ser cumprida. O ato de botar o pé na estrada e fazer
reportagem - esta atividade nobre da profissão - transforma o
jornalista em um contador de histórias de anônimos, que
ficariam assim se o profissional não os descobrisse. Sem esquecer
do repórter-fotográfico que registrará a imagem,
tão importante quanto o texto na hora da edição.
Ressalto estes trabalhos
para lembrar o Dia do Jornalista, comemorado no dia 7 de abril. É
um dia de lutas em defesa de uma profissão tão atacada
nos últimos anos, mas que sobrevive por conta do esforço
de companheiros entrincheirados nas entidades e nas redações.
O repórter que sai à rua ou o
editor que trabalha a matéria que chega ao leitor é tão
responsável pela manutenção da dignidade da profissão
quanto o sindicalista que diariamente bate à porta de órgãos
públicos e políticos dispostos a defenderem nosso espaço,
cada vez mais ocupado por pessoas sem formação e despreparadas.
O leitor quer um
trabalho jornalístico de qualidade e sério, só
desempenhado por profissionais que se prepararam para isso. São
anônimos, mas com objetivos comuns.
* Jorge Correa, segundo vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do RS
Em
defesa da elite
Publicado
em 14 de março de 2008
David
Coimbra*
Qualquer
um pode ser jornalista. Um médico, um advogado, um engenheiro,
todos esses, se fizessem um curso básico de um aninho, teriam
condições de trabalhar como jornalistas.
A premissa contrária
não é verdadeira. Um jornalista não poderia ser
médico sem fazer a faculdade inteira de Medicina e mais a residência.
Nem arquiteto ou engenheiro ou advogado.
O fato é
que o Jornalismo é uma profissão muito simples. Muito
fácil de ser exercida. E é aí, justamente na facilidade,
que residem as dificuldades.
Dias atrás
ocorreram dois casos ilustrativos. O assessor de imprensa de um deputado
distribuiu rilises com declarações do dito-cujo sobre
depoimentos na CPI do Detran ANTES de os depoimentos serem tomados.
Ouvi uma penosa entrevista do assessor. Assumiu a culpa pelo desastre,
isentou o deputado, pediu perdão. É um jovem, tem dois
anos e meio de profissão. Pela forma corajosa como se comportou,
acredito que será um bom jornalista e que irá crescer
com o incidente. Mas, se tivesse cinco ou seis anos de REPORTAGEM, duvido
que cometesse o erro. O exercício da reportagem faz toda a diferença
nessa profissão.
O outro caso acontecido
é a prova disso. No fim da tarde do mesmo dia, o Túlio
Milman, em seu programa na Gaúcha, recebeu a informação
de que as aulas no Parobé seriam suspensas devido à morte
de um professor. Perguntou à repórter que trazia a notícia
qual era o nome do professor. Ela vacilou, começou a pensar,
ia falar, mas o Túlio a interrompeu:
- Não confia
na memória: confere o nome certinho e depois traz aqui.
O Túlio,
jornalista experiente, sabe que o erro está sempre de tocaia
e ataca quando a gente está relaxado, quando a gente acha que
aquilo que está fazendo é fácil e simples. Por
isso, como ouvinte, telespectador e leitor, como consumidor de informação,
desprezo o excesso de interatividade. Quando ligo o rádio e ouço
"esse programa é feito pelo ouvinte", mudo de estação.
Não quero ouvir algo que é feito pelo ouvinte, nem ler
o que o leitor escreve. Quero o trabalho do especialista, do jornalista
de comprovadas experiência e competência. Quero consumir
a elite, não a mediocridade. Até democracia demais cansa.
* Cronista de Zero Hora
Por
uma nova Lei de Imprensa
Publicado
em 26 de fevereiro de 2008
Aloísio
Lopes*
A
suspensão, pelo Superior Tribunal Federal, em caráter
preliminar, de 20 dos 77 artigos da Lei 5.250/67, a Lei de Imprensa,
reabre o debate sobre a responsabilidade dos veículos de comunicação
e dos jornalistas para com a liberdade de imprensa,
de opinião e de informação no País. Dentre
os artigos suspensos estão os que permitem censura a espetáculos
e diversões, a apreensão e fechamento de jornais e também
o que vedava ao jornalista a prova da verdade, quando
o envolvido é 'alta autoridade'. A suspensão dos artigos,
alguns em desuso, por contrariar norma constitucional, já que
a lei de Imprensa é anterior a Carta Magna de
1988, é bem vinda e evita inclusive o risco de condenações
injustas, em diversos processos que tramitam no Judiciário.
O desenvolvimento
social e político do País exige regras legais democráticas
para as práticas sociais da mídia. A importância
que a informação tem na sociedade requer uma legislação
específica, pois aqui não se trata apenas de corrigir
erros da imprensa, mas garantir o direito constitucional da informação
a todos, respeitando-se a diversidade e a pluralidade de opiniões.
Trata-se também de garantir autonomia ao trabalho dos jornalistas,
para que estes possam oferecer liberdade de imprensa
plena. Por outro lado, não se trata tão somente de crimes
de calúnia, injúria ou difamação, como reduzem
alguns, mas também da publicação de matérias
inverídicas, ou da omissão, mesmo que não se acuse
alguém.
Proteger o cidadão
deve ser um dos pilares de uma Lei de Imprensa democrática,
por isso o direito de resposta ou retificação, deve ser
desburocratizado e ágil. A criação de canais de
participação do público e de solução
de conflitos também deve estar presente nesse novo escopo legal.
A intervenção
do judiciário se justificou pela omissão do Legislativo.
A necessidade de uma nova lei de imprensa foi inspiração
para diversos projetos de lei em tramitação na Câmara
dos Deputados, desde 1991, sendo que, um relatório final, de
autoria do deputado Vilmar Rocha (DEM-TO), aprovado pela Comissão
de Constituição e Justiça, após intensos
debates com a sociedade, dormita desde 1997 nas gavetas da Mesa da Câmara,
aguardando inclusão na pauta de votações.
A Federação
Nacional dos Jornalistas, no último congresso
nacional da categoria, realizado em 2006, em Ouro Preto,
havia detectado a necessidade de uma campanha nacional pela aprovação
da nova lei. O relatório Vilmar Rocha (projeto de lei 3.232/92),
revoga a lei anterior e apresenta inúmeras inovações,
dentre elas:
- veda
a apreensão de publicações ou suspensão
de transmissões de rádio ou tv;
- agiliza
o direito de resposta - se antes o reclamante estava sujeito a infindáveis
recursos judiciais que postergavam seu direito, pela nova proposta o
prazo máximo para o Judiciário expedir e fazer cumprir
a sentença é de 7 dias úteis;
- pluralidade
- exige que os veículos observem o registro das diversas posições
existentes em fatos que envolvam polêmica;
- autonomia
para o jornalista - junto com o direito de assinar
matéria, o jornalista também tem o direito de retirar
assinatura, quando julgar que seu trabalho tenha sofrido modificação
no processo de edição, que altere sua essência;
- Serviço
de Atendimento ao Público - tornando os veículos mais
acessíveis aos cidadãos que poderão recorrer diretamente
ao veículo resolvendo-se antecipadamente problemas que seriam
levados à esfera judicial (uma espécie de tribunal de
conciliação, tão comum em outras áreas);
- matéria
paga - estabelece regras de transparência para este tipo de veiculação;
- acaba
com a prisão - as penas de cerceamento da liberdade para os delitos
de imprensa, foram convertidas em prestação
de serviços à comunidade. A pena de prisão pode
ser usada somente para os casos nos quais o condenado deixa de cumprir
a pena de prestação de serviços;
- delimitação
de pena financeira - atendendo a reivindicação do próprio
empresariado, o projeto de lei estabelece o princípio da solvibilidade
da empresa, evitando que uma pena ilimitada leve ao fechamento do veículo.
Se o Congresso Nacional
tivesse aprovado esta lei há 10 anos, com certeza não
estaríamos ainda sendo julgados sob a ótica autoritária
da lei 5.250-67. Poderíamos agora estar discutindo novas medidas
para democratizar a comunicação brasileira
e adaptando-a às novas tecnologias que batem à nossa porta.
* Diretor de Relações Institucionais da Fenaj
Grande
mídia destaca Fórum Social Mundial 2008
Publicado
em 1º de fevereiro de 2008
Renato Gianuca*
Ao
contrário de algumas expectativas mais pessimistas, o Dia de
Ação Global do Fórum Social Mundial (FSM) do
sábado, dia 26 de janeiro de 2008, alcançou uma ótima
cobertura na grande mídia corporativa brasileira. Em artigo
publicado no site do Sindicato na véspera do evento, este repórter
escrevia: "quanto à repercussão na mídia,
certamente o Dia de Ação Global irá enfrentar
terríveis dificuldades nos meios de comunicação
corporativos, sempre hostis às atividades centralizadas do
FSM, seja em Porto Alegre, em Mumbai ou lá no Quênia".
E agora, a surpresa:
nada menos, nada mais que três milhões e 210 mil citações
aparecem na Internet quando se busca o FSM 2008. E esse dado é
apenas para as páginas em português. Lá se encontram
as matérias da Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo,
Jornal do Brasil, jornal Extra (RJ), Diário do Pará,
O Liberal, Correio Braziliense, Folha de Pernambuco, agências
Estado, JB, Agência Brasil, portal Último Segundo, e
texto do Jornal Nacional da TV Globo, até curiosidades como
matéria em português do jornal russo Pravda, de Moscou.
Mas, afinal: o
que terá acontecido nas redações de jornalões,
rádios e televisões ? O que se sabe, após alguns
contatos: a realização dos fóruns, o dos ricos
e poderosos em Davos, e o dos que lutam por mudanças - o FSM
- está vinculada entre leitores, ouvintes e telespectadores.
Então, falar em Davos na mídia é lembrar do Fórum
Social Mundial, criado em Porto Alegre, em 2001, como um contraponto
popular ao restrito evento lá na Suíça. Não
foram uma ou duas, mas várias pessoas nas ruas e outros locais
públicos perguntavam aos jornalistas daqui de Porto Alegre:
"já começou o Fórum de Davos. E o Fórum
Social Mundial 2008, onde será? E quando?".
Foto:
Cláudia Cardoso
Evento reuniu representantes de diversas entidades
Vamos tentar explicar:
quando o FSM no Quênia terminou, no final de janeiro de 2007,
ficou decidido pelo comitê internacional do evento que em 2008
haveria um dia mundial de ação e mobilização,
marcado para o dia 26 de janeiro, mesmo dia de encerramento do Fórum
Econômico lá em Davos.
Um grande jornal,
o Estadão paulista, chegou a publicar um editorial no ano passado
sobre o Fórum do Quênia prevendo a 'agonia' do FSM. A
exemplo de outros meios de comunicação, o vetusto jornalão
de São Paulo só destacou o que chamou de aspectos 'folclóricos'
do evento na África Oriental. E concluía: "os participantes
não se revelaram capazes sequer de se entender sobre o próximo
encontro. Em 2008. O evento simplesmente não será realizado".
Certamente, faltou
maior mobilização dos dirigentes do FSM para destacar
nos meios de comunicação corporativos - e através
deles a todos os interessados - a realização do Dia
de Ação Global. Daí derivou o desconhecimento,
fora dos círculos de militantes mais mobilizados, do evento
deste ano de 2008.
Os jornais
de Porto Alegre e o FSM 2008
Enquanto a maioria
dos meios de comunicação corporativos dos outros Estados
pautou suas matérias sobre o FSM 2008 com uma certa neutralidade
ideológica, como que para satisfazer a curiosidade de seu público
leitor sobre o evento, a Imprensa do Rio Grande do Sul apresentou
um comportamento diferenciado. O tradicional Correio do Povo editou
uma matéria de apresentação, longa e ilustrada
com gráfico do mundo, na sexta-feira, véspera do evento.
Nas edições de sábado, 26, e de domingo, 27 de
janeiro, o FSM 2008 também ganhou destaque. A manifestação
coordenada pela CUT-RS, abrindo uma tribuna popular para reivindicar
a volta do FSM a Porto Alegre no ano de 2010, mereceu inclusive um
texto com uma foto colorida na capa da edição de domingo.
O jornal O Sul apresentou várias pequenas menções
nas colunas de alguns jornalistas locais e poucas notícias
curtas. Já o Jornal do Comércio ignorou o evento.
Foto:
Cláudia Cardoso
Manifestantes ocuparam a Esquina Democrática em Porto Alegre
E coube ao jornal
Zero Hora o tom menor e mesquinho, bizarro até, com uma notícia
na edição 15.491 de sábado, 26 de janeiro, com
o título insólito: "Brigada Militar suspeita de
invasões em dia de protesto do Fórum Social". O
jornalão da RBS é conhecido por suas posições
de repúdio total aos movimentos sociais. Nesta linha editorial,
parece que vale tudo, inclusive 'fabricar' esta notícia absolutamente
inverídica e baseada em fontes mais do que comprometidas. Leiam
só este trecho: "a Brigada Militar monitora os passos
do MST no Estado, em razão de suspeitas de preparação
de invasões a propriedades, plantações e laboratórios
de multinacionais como Monsanto, Syngenta e Aracruz Celulose. (...)Conforme
nota publicada ontem no site da revista Veja, as invasões não
estão confirmadas, mas foram detectadas pelo serviço
de inteligência de uma das empresas", diz Zero Hora.
Nada dessas invasões
previstas por ZH aconteceu. O evento pacífico, com uma centena
de militantes de organizações sindicais, estudantis
e políticas, saiu do Palácio Piratini, abriu a tribuna
popular na Esquina Popular e seguiu até o Largo Glênio
Peres, em frente à Prefeitura de Porto Alegre, despertando
a curiosidade dos populares. Durante a passeata, o jornalista alemão
Gerhard Dilger comentou com o jornalista gaúcho José
Weis, da Comissão de Ética do Sindicato do RS: "acho
que o FSM só voltará a Porto Alegre quando o PT assumir
de novo a Prefeitura". É possível. Mas um fato
concreto: a capital de todos os gaúchos recebeu, a partir do
FSM 2001, um destaque internacional. E agora é lembrada, no
mundo todo, como o berço do Fórum Social Mundial. No
imaginário popular, o FSM, para o bem ou para o mal, está
vinculado ao fórum de Davos. E para onde quer que se viaje,
basta mencionar Porto Alegre para ouvir a pergunta curiosa dos estrangeiros:
"e o Fórum Social, como vai?".
*
Membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do RS
Dia
de Ação Global marca o Fórum Social Mundial de 2008
Publicado
em 25 de janeiro de 2008
Renato Gianuca*
Este sábado, 26 de janeiro, será o Dia de Ação
Global. É uma promoção do Fórum Social
Mundial (FSM) de 2008, reunindo milhares de pessoas em mais de 80
países, participando de mais de 700 atividades. Ao contrário
das edições anteriores, o FSM 2008 não terá
eventos centralizados (como em Porto Alegre, Mumbai, ou Nairóbi
em 2007). Ao invés, o evento terá centenas de atividades
organizadas pelos movimentos sociais, grupos, redes e entidades, todas
relacionadas com a proposta de construir um outro mundo possível.
Em
Porto Alegre, o Dia de Ação Global começa bem
cedo. Às 9h da manhã, centenas de militantes de movimentos
sociais, sindicais e estudantis estarão concentrados em frente
ao Palácio Piratini. Vão reivindicar do Governo do Rio
Grande do Sul a solidariedade e as condições mínimas
necessárias para que o FSM do ano de 2010 volte para Porto
Alegre. Depois da manifestação na Praça da Matriz,
no centro da capital gaúcha, os manifestantes irão em
passeata até o Largo Glênio Peres, em frente à
Prefeitura de Porto Alegre.
Esse
Dia de Ação Global servirá para mostrar que o
mundo pode ser um lugar sem guerras e sem miséria, sem destruição
ambiental e sem imperialismos, e sem restrições à
liberdade de expressão e sem privatização de
espaços e recursos públicos. Algumas entre as várias
manifestações deste Sábado vão destacar
a questão da democratização dos meios de comunicação,
e o papel que a mídia exerce, ou pelo menos deveria exercer,
como um importante instrumento para a formação da cidadania.
É por este motivo, entre outros, que o Sindicato dos Jornalistas
Profissionais no Rio Grande do Sul, estará presente na manifestação
em frente ao Palácio Piratini, através de alguns de
seus diretores.
Mas
não apenas Porto Alegre dirá presente a este Dia de
Ação Global: no interior do Rio Grande do Sul também
haverá manifestações em Santa Cruz do Sul, com
debate sobre o meio ambiente e as reformas urbana e agrária,
e um evento político-cultural em Pelotas. Ao todo, no Brasil,
estão previstas para este Sábado 156 atividades em praticamente
todos os Estados. A maioria dessas atividades estará concentrada
em Belém do Pará. Explica-se: é que a capital
paraense já se prepara para ser a sede mundial do FSM do ano
de 2009. Serão manifestações pelo meio ambiente,
procissões pela água e pela terra como direitos humanos,
e várias marchas das mulheres. Em Brasília, serão
plantadas mil árvores e milhões de sementes.
Uma
aposta arriscada?
E
todas essas atividades do Dia de Ação Global estarão
acontecendo em paralelo às discussões do Fórum
Econômico Mundial em Davos, Suíça, onde estão
representados os principais magnatas econômico-financeiros do
Planeta, mais personalidades da área e chefes de Estado e de
Governo. O Brasil, em Davos, é representado este ano pelo ministro
das Relações Exteriores, Celso Amorim.
Descentralizar
o FSM, como acontece este ano, é uma aposta arriscada. Há
o perigo de desmobilizar os militantes, em um ano já marcado
pela recessão econômica dos Estados Unidos e suas repercussões
nos mercados financeiros globais. Mas para o integrante do Comitê
Internacional do Fórum Social Mundial, Cândido Grzybowski,
esse formato descentralizado já era reivindicado por vários
movimentos sociais, para - segundo ele - “dar mais visibilidade
às suas lutas e à conexão entre as mesmas”.
Já quanto à repercussão na mídia, certamente
o Dia de Ação Global irá enfrentar terríveis
dificuldades nos meios de comunicação corporativos,
sempre hostis às atividades centralizadas do FSM, seja em Porto
Alegre, Mumbai ou lá no Quênia. Vai depender, e muito,
da atividade dos comprometidos com o FSM de divulgar o Dia Global
pela Internet, para tentar romper o bloqueio da grande mídia.
E continuar divulgando a mensagem: “Nós não somos
Davos! Um outro mundo é possível”.
* Membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do RS
Cuidado
com o auto-elogio
Publicado
em 19 de novembro de 2007
Jorge Correa *
Nos
anos 80, a minha editora no jornal Zero Hora era a melhor de todas,
mas tinha um comportamento distinto dos demais profissionais. Distribuía
críticas para matérias mal aprofundadas e com texto
fraco, deixando jovens repórteres incomodados. Isso porque
o elogio não aparecia na mesma proporção quando
acontecia o contrário, ou seja, uma grande matéria aplaudida
por todos. Sua justificativa: apurar e escrever bem é obrigação
do bom repórter. Foi uma das grandes lições que
aprendi ao longo de minha carreira.
No
entanto, parece que o comportamento na mídia mudou. O elogio
e, especialmente, o auto-elogio, fazem parte da política vigente,
justamente no diálogo com o público externo. Eu não
sucumbo ao auto-elogio, especialmente quando ele é infundado,
reincidente, desproposital, gratuito e desnecessário. Quando
alguém faz isso, é porque algo não está
bem. Primeiro, porque é melhor deixar que os outros falem da
gente. Depois, porque enfraquece a capacidade dos profissionais de
superarem as expectativas.
Prefiro
os jornais que têm um ombudsman, profissional que está
ali para dar voz a quem lê os periódicos. Dedica-se a
receber, investigar e encaminhar as queixas dos leitores. Realiza
a crítica interna do jornal e, uma vez por semana, produz uma
coluna de comentários sobre os meios de comunicação,
sendo o jornal em que trabalha o alvo preferido. O maior exemplo deste
comportamento é o jornal Folha de S. Paulo. Portanto, desconfie
do auto-elogio, especialmente quando ele for feito de forma escancarada
nas páginas dos jornais. Ou mesmo nos espaços de opinião
das televisões e das rádios.
* Segundo vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do
RS