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O avanço do atraso

Publicado em 19 de junho de 2009

José Antônio Silva*

Pois olha, me senti derrotado, já que sou sim (ou era? Me perco no tempo verbal, a essas alturas do campeonato perdido no STF...) pela defesa do diploma. Se as faculdades de Jornalismo são ruins (na média) que sejam aperfeiçoadas. E se formos por aí, aproveitemos para acabar com a maioria das faculdades de outros campos de estudo. E no mesmo embalo já terminemos também com a obrigatoriedade dos cursos de direito (afinal, havia “rábulas” muito respeitados e com grande conhecimento jurídico: te cuida, Gilmar!), assim como havia (ainda há, nos grotões e periferias) dentistas e outros especialistas formados na escola da vida, muito requisitados e bem quistos pela clientela.

Nosso país é jovem - historicamente - e vamos avançando aos trancos e barrancos, com sacanagens, corrupções, incompetência etc. Mas terminar com a exigência de curso superior é avançar para o passado. Educação, ao menos aqui, não é demais.

Fala, vagabundo!

Tenho uma experiência pessoal sobre o tema. Quando comecei no jornalismo - 1972 anos D.C. - como estagiário, fui parar na reportagem policial de um conhecido jornal gaúcho. Pois bem, tirando o editor Antonio Oliveira, grande figura formada pela Fabico (UFRGS), e outros estudantes, o setor era levado pelos jornalistas formados na prática. Não vamos citar nomes, vocês conhecem o tipo: saíamos na “viatura” do jornal para fazer a ronda das delegacias, etc, e nossos “coleginhas” - que usavam revólver na cintura - se esmeravam na atividade, especialmente na hora de entrevistar: aplicavam uma bolacha na cara do preso algemado e comandavam: - Fala, vagabundo!

Boa parte destes jornalistas arrecadava dinheiro de bicheiros, outros tinham “mulher na quadra”. Mais ainda: misturavam “redação” e “comercial” sem problemas... Não é que não tivessem ética profissional - não sabiam o que era isso.

Na faculdade, bem ou mal, além dos aspectos técnicos da profissão, já discutíamos à época (mesmo suspeitando que o professor de sociologia fosse informante do DOPS e pesássemos bem nossas opiniões na hora de falar) os limites éticos do que se fazia e até as questões de legislação.

Anos depois (final da década de 90) dei aulas de redação jornalística na UCS, em Caxias do Sul. Via na cara da (maioria) da gurizada a ânsia por absorver o que os professores pudessem lhes repassar. Queriam debater a profissão, e isso era feito. Como eu não tinha mestrado, nem tempo para fazer, terminei saindo. Esta é outra discussão.

Seriedade e responsabilidade

Mas percebi com total clareza a diferença de “profissionais” graduados na escola da vida e dos que cursaram faculdade. Talento não se aprende, mas o resto sim.O saldo geral de seriedade e responsabilidade - na média - é muito superior entre os que estudaram.

É verdade: há grandes jornalistas que não estudaram e mesmo assim são referenciais... Ocorre que muitos desses vieram de um tempo anterior à regulamentação, sem falar que são exceções, foras de série que por seu dom natural e grande inteligência superaram o fato de ter ou não ter formação acadêmica (e penso aqui, rapidamente, no Mauro Santayana e, mesmo, no Paulo Francis, que “fascistou” nos últimos anos mas era brilhante). Para a maioria, quanto mais escola, melhor.

E o ministro Gilmar ainda disse, para justificar sua posiçãozinha, que o Caco Barcellos é um grande jornalista sem ter curso superior. Eu até acreditaria no presidente do STF, se ele - Caco - não tivesse cursado a Famecos (PUC/RS) junto comigo.

Sem falar que, se formos acabar com diploma “por ser uma lei do regime militar”, teremos que dar descarga em milhares de legislações criadas ao longo de 25 anos de ditadura. E que continuam em pleno vigor, sem contestação.

Este esforço todo da ANJ e aliados para acabar com a exigência de curso superior também pode ser perfeitamente encarado como mais uma conquista na escalada de desregulamentação das profissões e exercícios profissionais, bem ao gosto do capital livre, leve e solto (fora da prisão) - mesmo que em termos mundiais seus gurus estejam de castigo por terem quebrado a economia mundial, em sua última travessura.

E outras coisinhas mais. É o que penso.
* Jornalista


Só a luta faz a lei

Publicado em 18 de junho de 2009

Elaine Tavares*

Paulo Freire, o grande educador brasileiro que é praticamente desconhecido no Brasil, sempre foi enfático com relação à alfabetização. “Não basta saber ler, é preciso saber ler o mundo”. Queria dizer com isso que aprender era coisa que ia muito além da compreensão sobre como se juntavam as letras. Era necessário estar capacitado também para uma leitura crítica do mundo. E como é que se consegue isso? Não basta unicamente estudar, ler, ter acesso a múltiplas fontes de informação, múltiplos pontos de vista. É preciso fundamentalmente saber de onde se é. E o que isso quer dizer? Que a pessoa precisa ter bem claro o lugar que ocupa no mundo, o que, no mundo capitalista, nos leva a uma compreensão da nossa posição de classe.

A votação sobre a não exigência do diploma para a profissão de jornalista, que aconteceu no STF brasileiro, diz bem desta questão. Ali estavam os senhores togados, representantes da classe dominante. São homens nomeados pelos presidentes de plantão para defender os interesses dos que mandam. Nada mais que isso. Vez ou outra acontece uma decisão com base na lei, mas sempre é coisa pequena, que não mexe nas estruturas, porque como bem diz o professor Nildo Ouriques, da UFSC, a democracia liberal é um regime sem lei. Neste modo de governo, as leis são mudadas ao bel prazer da minoria que tem o comando.

Vejamos os argumentos do ministro Gilmar Mendes para que a profissão prescinda de uma formação universitária: “Um excelente chefe de coz