Defesa Chaparini

Jornalistas contra as adversidades: profissionais que buscaram fontes alternativas de renda

(Da esq. para a dir.) Vera Rotta, Nina de Oliveira e Rosina Duarte expõem seus trabalhos em feiras que reúnem jornalistas de diferentes áreas de atuação (Da esq. para a dir.) Vera Rotta, Nina de Oliveira e Rosina Duarte expõem seus trabalhos em feiras que reúnem jornalistas de diferentes áreas de atuação Fotos: Douglas Roehrs / Sindjors

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o desemprego subiu para 13,7% no primeiro trimestre de 2017. São 14,2 milhões de desempregados no Brasil, um recorde para a série histórica, iniciada em 2012. O país vive a pior recessão desde 1948, segundo o IBGE. O PIB, que é a soma de bens e serviços produzidos num determinado período, caiu 3,6% em 2016. Um resultado que fica ainda mais grave levando em conta a queda de 3,8% de 2015. O mercado de comunicação não está alheio à crise. A situação é delicada – sendo que nos últimos três anos há demissões recorrentes, baixa remuneração, sobrecarga de trabalho etc. Tratando-se do setor de jornalismo no Rio Grande do Sul, cerca de 200 profissionais são demitidos por ano – muitos desses postos sem reposição. Esse, entre outros fatores, faz com que muitos trabalhadores acabem optando por maneiras alternativas de obter renda. Nesta edição, o Versão traz exemplos de profissionais que conseguiram de alguma forma driblar barreiras.

 

Há muitos mistérios no mundo. O maior deles é como Rosina Duarte, bageense de 60 anos, conseguiu passar no vestibular. Quem diz isso é a própria irmã, conta Rosina, sorrindo, após confessar que não estudava muito. No entanto, desde os 11 anos já havia decidido que queria ser jornalista e fez ensino superior na área, na UFRGS e na PUCRS, na década de 1970, na Capital.

 

Já formada, foi trabalhar durante breve tempo no Correio do Sul, em Bagé. “Eles me fizeram todos os batismos de fogo que tu podes imaginar. Me mandaram até pra zona do meretrício”, lembra Rosina.

 

A experiência no interior durou cerca de meio ano. Ao ser chamada para cobrir férias na Folha da Tarde, voltou para Porto Alegre. Depois de passagem pela Caldas Júnior, foi para Zero Hora e Diário do Sul, entre outros locais. Trabalhou como repórter durante 17 anos, até que percebeu que se sentia deslocada.

 

 

Seu sonho de criar um grupo mais cooperativo foi posto em prática e assim surgiu, no fim da década de 1990, a Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice). O projeto visa dar voz para grupos sem representatividade na mídia tradicional abrindo espaço para que eles contem suas próprias histórias. “A gente percebeu que comunicação não é só livro, jornal, vídeo. Comunicação é toda forma de expressão do ser humano. A arte é a mais antiga e isso mudou a Alice”, explica sua criadora.

 

O grupo começou a promover saraus com exposição de artesanatos. Foi num desses que Rosina expôs o resultado de outra paixão sua. Seu filho com o fotógrafo Luiz Abreu, Amaro, que é artista visual, queria publicar um livro. Sem dinheiro para ajudar, a mãe começou a fazer chapéus para vender – atividade que mantém até hoje.

 

Bisneta de uma alfaiate, neta, filha, irmã e nora de mulheres que costuravam, Rosina cresceu em meio aos retalhos. Quem a ensinou a tricotar foi a tia, enquanto cozinhava. A mãe e a sogra deixaram como herança potes de botões.

 

“É um trabalho que me acalma quando tenho muita coisa para fazer”, ressalta Rosina. Na feira onde expõe suas peças, também vende as dos outros. “Aqui todo mundo vende coisa de todo mundo. Isso é uma pequena revolução. A minha geração sonhava com revolução e tinha frustração porque ela não saiu. De repente tu se dá conta de que pode fazer pequenas revoluções que são possíveis”, evidencia.

 

Uma segunda arteira

 

A história da Alice está atrelada à trajetória do coletivo Arteiros, que trabalha com cartoons, artes plásticas, artesanato, fotografia, joias artesanais e livros. O grupo realiza feiras, como a do começo de maio deste ano, que reuniu mais de 20 expositores, muitos deles jornalistas.

 

A iniciativa de fazer um bazar nasceu no fim da década de 1990, quando Rosina e sua amiga Vera Rotta, alegretense de 59 anos, uniram-se para expor os trabalhos dos colegas no segundo andar do Mercado Público. “A gente pensou nessa riqueza que são nossos amigos”, salienta Rosina.

 

À época, nenhuma das duas era artesã ainda. Vera estudou Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e trabalhou em veículos de Porto Alegre e Florianópolis. Morou durante anos em São Paulo, onde trabalhou na Câmara Municipal, e em Brasília, com atuação principalmente nos governos de Lula e Dilma. É diretora do documentário Uma dor suspensa no tempo, que aborda as ditaduras no Cone Sul, entre outros, e estava em plena atividade quando teve um descolamento de retina em Teresina, no Piauí.

 

Após passar por quatro cirurgias, voltou para Porto Alegre para ficar em repouso absoluto. Sem poder fazer força, usou o tempo livre para desenhar. No período que cursou jornalismo, também frequentou Belas Artes durante um ano. Teve que largar o curso devido à sobrecarga e, muitas anos depois, viu-se reconectada à arte.

 

 

“É fantástico que as pessoas tentem outras habilidades que possam desenvolver”, ressalta. Por mais que goste de produzir reportagens, entende o momento como difícil: “Talvez um dos únicos caminhos da grande reportagem seja o documentário, mas esbarra numa situação financeira complicada”.

 

Vera observa que há muitos desempregados e trabalhadores que não conseguem suprir suas necessidades. Para ela, este é um momento interessante para as pessoas explorarem outras atividades.

 

Curso durante férias aprimora veia artística

 

“Sempre gostei muito de trabalhos manuais”, diz Nina de Oliveira, 58 anos. Natural de Nipoã, no interior de São Paulo, ela foi para a capital paulista estudar Ciências Sociais. Largou o curso para dedicar-se à diagramação. O trabalho, hoje desenvolvido em softwares de computador, era feito à mão à época. “A gente usava o estilete para apertar as linhas”, recorda.

 

 

Foi fazendo estágio na revista Capricho que conheceu o marido José Antônio Silva, a quem acompanhou até Porto Alegre, há trinta anos. Na capital gaúcha, trabalhou no Diário do Sul, no governo do Estado, na Zero Hora, onde foi demitida após voltar de licença maternidade ao ter o segundo filho, e no Sindicato dos Bancários, onde está até hoje.

 

Em 2007, aplicou o dinheiro das férias em um curso para aprimorar a costura. “Os jornalistas têm uma tendência artística. Quando se tem essa veia, é uma maneira de compor renda, ganhar um dinheiro a mais. Tem que fazer alguma coisa para complementar, é difícil viver só com o seu salário”, comenta Nina.

 

A paulista criou um blog em 2008 e, no fim de 2013, começou a expor no sarau da Alice. Gosta de fazer bijuteria, crochê e bordar. Apesar de já estar aposentada, continua trabalhando porque precisa de renda extra.

 

Ser fã pode se transformar em fonte de lucro

 

A relação de amor entre André Ribeiro, 45 anos, e a banda Rolling Stones começou 35 anos atrás. Desde então, já foi a 17 shows do grupo – no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, EUA, Inglaterra e Portugal – e planeja ir a outros três no segundo semestre de 2017, na França. Há 8 anos, o porto-alegrense resolveu criar um blog e, no fim do ano passado, após sair do jornal O Sul, transformou a paixão em uma fonte de lucro.

 

Formado em Jornalismo pela PUCRS, em 1997, Ribeiro trabalhou em diversos veículos, como as rádios Guaíba, Atlântida, CBN e Bandeirantes. O profissional entrou na redação de O Sul quando o jornal ainda estava em processo de implantação.

 

Começou como repórter e passou para repórter especial, editor assistente e editor adjunto. Ficou 15 anos no veículo, até ser chamado para negociar sua saída, em setembro de 2016. “E aí, vou fazer o quê? O mercado de jornalismo como eu conheci é praticamente inexistente. As pessoas estão saindo das redações e não tem reposição, se tem é interna”, lastima Ribeiro, que já vinha amadurecendo a ideia de ter uma fonte alternativa de sustento.

 

O jornalista contratou uma empresa para reformular o site e criou uma loja online. “Meu produto é a informação, mas você também pode comprar”, esclarece. Com cerca de 20 mil acessos por mês, o Stones Planet Brazil tem produtos oficiais da banda, como CDs, DVDs, camisetas, livros etc. “O negócio deu um retorno interessante. Claro que não é algo que vá viver só disso. Pelo menos no momento, que a coisa é estável, entra o dinheiro e consigo pagar as contas”, afirma.

 

 

Ao longo dos 21 anos de carreira, Ribeiro sempre viu com espanto colegas dedicarem-se ao jornalismo como se apenas aquilo fosse a sua vida: “Tem cara que não vai à formatura do filho por causa de um jogo da Libertadores. E eles acham que está certo. Eles ficam com aquilo na cabeça de que antes de tudo eu tenho que cumprir meu dever profissional. Eu sempre via isso e me apavorava”.

 

“Na faculdade dizem que a pessoa é jornalista 24 horas. Querem transformar o cara num robô. Aí você trabalha 24 horas por dia e ganha R$ 2 mil”, critica Ribeiro, que diz que seu retorno às redações depende das circunstâncias.

 

Cerveja que dá renda

 

Tatiana Sottili, 45 anos, veio de Nova Prata para Porto Alegre na adolescência para prestar vestibular. Cursou dois anos de Relações Públicas na Unisinos, em São Leopoldo, e foi para a PUCRS fazer Jornalismo. Formou-se em 1998 e passou a trabalhar no governo de Olívio Dutra no ano seguinte.

 

Ela e outros cinco profissionais, todos recém formados, criaram a editoria do Interior, no Palácio Piratini. Depois, trabalhou durante um ano e meio no Banrisul e alguns meses como coordenadora de comunicação na Procempa. Com a chegada de Lula à presidência, mudou-se para Brasília para integrar a equipe da secretaria de Comunicação do governo Federal.

 

Passou por outros setores governamentais, foi para a EBC, o Instituto Chico Mendes, a FSB Comunicação, voltou para a capital gaúcha para integrar o time do governo Tarso Genro, já no fim do mandato, e decidiu: “Independentemente de ele ganhar ou não, não queria mais trabalhar com isso”.

 

Em 2014, o irmão e um sócio estavam terminando de montar uma fábrica de cervejaria artesanal em Nova Prata. Tatiana começou a se envolver na comunicação da Solerun e, como eles não tinham dinheiro para pagá-la pelo serviço, fizeram um acordo: “Eles iam facilitar o que desse pra comprar a cerveja e ganhar o mercado em Porto Alegre. A maneira que eu teria como receber seria com a venda do produto”.

 

 

No começo, usava seu próprio apartamento, no oitavo andar de um prédio no bairro Mont’Serrat, como depósito e fazia as entregas. “Eu carregava e fazia tudo ao longo do primeiro ano. Tava travando a minha coluna. Não posso mais carregar caixa”, diz. Mudou a forma de distribuição e o depósito deixou de ser em sua residência. Hoje planejam uma filial na cidade.

 

“Essa facilidade de ter meu escritório dentro de casa, organizar a rotina e fazer o meu horário me deixa super feliz. Em Brasília, os salários eram super bons, mas gastava bastante porque o trabalho era pesado e acabava querendo compensar na rua. Aqui, eu tenho uma vida bem mais justa. Estou conseguindo dar a volta de certa forma”, avalia Tatiana.

 

De jornalista à livreira

 

“Eu sou jornalista na minha essência”, esclarece Lu Vilella, 57 anos. Paulista de São José do Rio Preto, ela escolheu a profissão aos nove anos. Até hoje lembra quando visitou São Paulo pela primeira vez e emocionou-se ao passar em frente ao prédio do Estadão.

 

Em busca de um ensino considerado de excelência, Lu veio em 1981 para o Rio Grande do Sul para estudar na Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS). Ela, que era funcionária concursada do Banrisul, fez estágio na TVE, emissora onde passou a trabalhar, após se formar, em diversas funções ao ser cedida pelo banco estatal.

 

 

“Na TVE, fiz tudo que você imaginar, redatora, repórter, produtora, apresentadora, editora. Onde precisava, a gente estava”, conta Lu, que se aposentou no ano passado.

 

Mesmo com graduação, ela sentia falta de “algum café no bule”. Fez especialização em literatura infantil e mestrado – este não concluiu, pois não entregou a dissertação. “Nunca foi meu objetivo entrar na Academia. Não aguentava mais ter que provar que eu tinha lido, parei e abri uma livraria”, conta.

 

Em 1995, deu vida à Bamboletras. Um ano depois, após entrevistar Walter Salles, que lançou Terra Estrangeira no Guion Center, encantou-se pelo centro comercial Nova Olaria, para onde mudou-se pouco tempo depois e está até hoje.

 

“Sou meio relações públicas, jornalista, administradora, balconista”, comenta Lu, que acrescenta: “Só é difícil fazer o que a gente não gosta. A gente gostando, dá um jeito. Se é a tua história, a tua alma, tu vais criar um espaço. Eu tive muita sorte na vida, mas junto dela teve muito trabalho”.

 

Abaixo, leia a edição completa do Versão dos Jornalistas de julho:

 

 

 

Texto: Douglas Roehrs / Sindjors

Última modificação em Quinta, 06 Julho 2017 14:30

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