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Morre Castelinho, o piaúcho que presidiu o SINDJORS e a FENAJ na época da ditadura

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS) e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) lamentam o falecimento de seu ex-presidente Lucídio Castelo Branco ocorrido na noite de quarta-feira (dia 11), aos 91 anos. Natural de Teresina, Piauí, era gaúcho de coração e por opção e um grande líder dos jornalistas brasileiros. O velório está sendo realizado no Cemitério João XXIII desde às 9h. O enterro está marcado para as 14h30 de hoje. A entidade se solidariza com familiares e amigos.

 

Castelinho, como era chamado carinhosamente pelos companheiros, foi presidente do Sindicato de 1965 a 1967 e da FENAJ de 1968 a 1971, período nebuloso de ditadura civil-militar e da censura. Bacharel em Direito pela Ufrgs, Lucídio era jornalista de uma época sem exigência do diploma, mas deixou para a categoria sua maior conquista: a regulamentação profissional por meio de negociação com o Ministério do Trabalho. É a mesma que, por solicitação e pressão patronal, foi cassada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009. Foi também na sua gestão que a atual sede do SINDJORS no centro de Porto Alegre foi adquirida.

 

Lucídio ganhou a medalha da Assembleia Legislativa do RS quando o SINDJORS foi homenageado pelos seus 70 anos.

 

Em suas muitas entrevistas, não escondia o orgulho de ter duas terras, separadas por 3.757 quilômetros, do Nordeste ao Sul.  “Sou um piaúcho”, dizia com alto e bom tom. Ele continuava bastante ativo e participativo do dia a dia do Sindicato. Na primeira, ele recebe o reconhecimento de seus colegas de entidade nos festejos de 65 anos. Na segunda, ao lado de outros dirigentes, recebe medalha da Assembleia Legislativa do RS quando o SINDJORS foi homenageado pelos seus 70 anos. No ano passado, quando o sindicato começou a enfrentar uma crise em função da reforma trabalhista do atual governo federal, ele participou de reuniões para avaliar a situação. Em uma delas, no dia de seu aniversário. Mesmo aposentado, continuava contribuindo financeiramente para a entidade.

 

 MEMÓRIAS DE 48 ANOS DE JORNALISMO POLÍTICO

Escreveu sua autobiografia, “Da memória de um repórter” lançado em 2002, relata os principais episódios em 48 anos de trabalho. Nascido em 13 de novembro de 1926, morou no Rio de Janeiro de 1939 a 1949, ano em que veio para Porto Alegre. Escolheu viver os melhores momentos de sua vida profissional no extremo sul de um país imenso pelo simples fato de que não conhecia o lugar. Muitos nordestinos, como ele, desceram o país, mas ficaram na região Sudeste. Sempre assumiu sua paixão pelo Rio Grande do Sul. Tanto que é Gaúcho Honorário, título outorgado pelo Grupo RBS aos cidadãos que nascerem em outros pagos, vieram para cá e ganharam destaque.

 

Sua longa experiência como repórter – 48 anos – foi vivida nos veículos da Companhia Jornalística Caldas Júnior (Folha de Tarde e Correio do Povo) e como correspondente do Jornal do Brasil.  Castelinho começou na profissão aos 17 anos, no Rio, quando precisava trabalhar para dar continuidade aos estudos. Não tinha experiência alguma em redação e a familiaridade com máquina de escrever só por meio de um curso de datilografia, que na época equivalia ao de digitador. Mas tinha um irmão que era jornalista, o cronista esportivo de grande projeção na época chamado Carlos Castelo Branco. Escrevia uma coluna muito conhecida, a Coluna do Castelo.

 

O irmão sugeriu que fosse feito um teste para ver se o Castelinho era alfabetizado. Um bilhetinho para um amigo de Jornal Vanguarda lhe garantiu a vaga de auxiliar de repórter. Castelo Branco brincava, dizendo que entre as atribuições do tal auxiliar está a de correr atrás do “boneco” do defunto. No jargão jornalístico, é a fotografia 3 x 4 de uma pessoa que morrera. O entrevistado não tinha pruridos para admitir que seu começo na carreira de jornalista foi alcançado por meio do tradicional jeitinho.

 

Foi um empurrão, pois a partir de então o jovem que fora para o Rio com o pai, a mãe e nove irmãos precisou mostrar muita garra, coragem e talento. No Vanguarda, passou quatro anos fazendo tudo que existia no veículo: de auxiliar de repórter a secretário de oficina. Ou seja, acompanhou e aprendeu todas as fases da feitura de um jornal. Enquanto aprendia a ser jornalista, Castelo Branco estudou Direito e fazia concursos. Em um deles, passou para o cargo de escrivão substituto da Justiça Militar Federal. Como a vaga não era para o Rio de Janeiro, teve que escolher uma cidade de fora.

 

VINDA PARA PORTO ALEGRE COMBINADA COM A NAMORADA

Optou por Porto Alegre, que não conhecia, depois de consultar a namorada, sua esposa para toda a vida. O que ele queria mesmo era ser jornalista. Mas os primeiros contatos na capital gaúcha foram marcados pela decepção. A primeira foi quando, já se considerando um repórter razoável, procurou o secretário de Redação e solicitou aumento de salário. Castelinho confessa que sempre foi assim: impetuoso, decidido. A resposta do chefe, admitindo que ele merecia ganhar mais, mas que iria tentar um emprego na prefeitura, foi uma decepção. Percebeu que o jornalismo não era uma profissão, era apenas um “bico”. Uma escada para conseguir um emprego de fato.

 

Esta realidade perdurou por muito tempo ainda, pois era comum que o jornalista tivesse dois empregos até os anos 90. Muitas vezes fazendo reportagem na mesma área em que atuava lá fora. Ou seja, era repórter de política e trabalhava no Palácio, na Assembleia ou na prefeitura. Tratava-se de compensar o baixo salário que o jornalista recebia. Outras formas de compensação eram conseguidas com empresários de diversas áreas e com os governos.

 

Segundo Castelo Branco, os jornalistas com carteira do sindicato não pagavam passagens em avião e em ônibus, eram dispensados de pagar ingresso em cinema e tampouco recolhiam o imposto de renda. Além disso, tinham a porta franqueada em outros lugares de diversão.

 

Os anos em que o jornalista piauiense presidiu o Sindicato dos Jornalistas e a FENAJ foram os mais duros da ditadura militar, que em alguns momentos Castelinho chamava de revolução. No entanto, confessou em entrevista que a época foi de um percalço muito grande. Revela que perdeu muito tempo preocupado com a família dos colegas que eram presos. Vivia visitando gente presa, fazendo apelos para A e B (os militares) a favor dos colegas. Disse que viajava de um estado para outro, e os interlocutores não lhe davam bola. Nem o recebiam mais. Confessa que a categoria estava em frangalhos em matéria de prestígio.

 

TEMPO DE CENSURA NAS REDAÇÕES

Testemunha daqueles tempos sombrios, Castelinho garantia que os donos dos jornais apoiaram abertamente o regime militar. O único que não simpatizou foi o Samuel Wainer, da Última Hora. Em relação à censura nas redações, o jornalista sempre dizia que, nos dois jornais em que trabalhou não houve isso de forma descarada. Além da Folha da Tarde, ele era correspondente do Jornal do Brasil em 1961. Trabalhou concomitantemente nos dois de 1961 a 1964. Neste ano, a sucursal do JB foi instalada em Porto Alegre e ele pediu demissão da Folha. Nesta e no Correio do Povo, ambos da Caldas Júnior, ele diz que nunca vi um caso de censura por parte do governo. Mas tinha uma razão para isso. O secretário de redação o chamava e dizia: “Olha Castelo, este nome aqui, Leonel de Moura Brizola, não pode mais aparecer no jornal”. Ele tinha uma página política na Folha da Tarde e não poderia citar o nome do Brizola. Era autocensura. Com isso, perdeu o interesse pela política. Largou a Folha da Tarde e foi trabalhar no Jornal do Brasil, onde sabia que tinha censor.

 

Dois presidentes (Getúlio Vargas e João Goulart), além do governador gaúcho Leonel Brizola, conviveram proximamente com Castelo Branco. Em relação ao primeiro, o jornalista contava uma história que garantiu seu primeiro emprego com carteira assinada, apesar de ganhar a antipatia dos colegas. Em meio a negociações para as eleições, foi a São Borja, onde Getúlio se encontraria com Nereu Ramos, senador por Santa Catarina, e que pleiteava a candidatura. Obviamente que o gaúcho o enrolou, pois o candidato era ele mesmo. Mas a notícia tinha que ser publicada na Folha da Tarde, jornal vespertino. Astuto, o piauiense conseguiu a entrevista de Getúlio e Nereu por volta do meio dia e voou para Porto Alegre a tempo de editar a matéria no jornal, que rodava às 14h. Os colegas do centro do país só publicariam no dia seguinte, pois seus veículos eram matutinos. A entrevista foi publicada, deixou zangados os demais jornalistas e Castelo recebeu convite para trabalhar no Diário de Notícias. Não foi porque o seu jornal cobriu a oferta. E a carreira do jovem ascendeu.

 

Acompanhou de perto a Campanha da Legalidade, que ele chamava de “o levante do Brizola”. Diz que foi uma agonia, pois não sabia se os tanques do Exército viriam. Ficou cinco dias enfurnado dentro do Palácio ajudando o pessoal do Brizola. O Jango não queria se expor. Castelinho fala que diziam que ele era corajoso, mas cauteloso demais para o seu gosto. O jornalista virou protagonista da chegada do Jango ao Brasil. Brizola pediu para ele ir a Montevidéu e esperar o Tancredo Neves. Isso porque ele tinha se comprometido com o Tancredo que o Jango não faria qualquer pronunciamento antes de falar com o político mineiro. Este já estava com a proposta do parlamentarismo. O Brizola chegou para o jornalista e disse: “Castelo, tu vais com o Pedro Tarso Gonzales, deputado e chefe da segurança do Palácio. Vocês vão acompanhar um grupo de jornalistas do mundo inteiro para buscar o Jango em Montevidéu”. O plano do Brizola era contar com o Jango junto com os jornalistas em um avião. Ele disse claramente: “Vou convidar um jornalista de cada país e vocês vão para Montevidéu. A função de vocês é trazer o Jango com os jornalistas. Eu quero ver eles derrubarem este avião”.

 

Era um projeto audacioso. Mas o jornalista topou a parada. Em Montevidéu, foi transformado por João Goulart em porta-voz. A situação estava enrolada e os jornalistas brasileiros e estrangeiros estavam à espreita de uma entrevista com o vice-presidente, que chegou e ficou enrolando. Até que chegou para Castelinho e disse: “Seu Castelo, o senhor está aqui agora na condição de secretário de imprensa de Presidência da República do Brasil no exílio”. E pediu para que ele chamasse o pessoal para a entrevista. Cada um fez uma pergunta, ele levou todos na conversa e passou o dia com o Brizola numa linha e o Tancredo na outra. O Tancredo dizia o que tinha conseguido dos militares e ele transmitia para o Brizola. A situação demorou dois dias até que Jango resolveu embarcar para Porto Alegre, junto com jornalistas e deputados.

 

Este foi Castelinho, um jornalista envolvido com a política e com o sindicalismo em tempos difíceis.

 

Fonte: Imprensa/SINDJORS

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Cadastrada em 12/07/2018