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Sindjors celebrou aniversário de 79 anos com música e debate sobre desafios para jornalistas

Para além dos textos dos noticiários para os jornais, TVs e sites, os jornalistas gaúchos têm uma boa relação com a música e composições autorais. E foi isto que o público assistiu, virtualmente, no dia 23 de setembro, data que marcou a festa dos 79 anos do Sindicato dos Jornalistas Profissionais – Sindjors. A live mostrou os talentos jornalísticos musicais da banda de rock Eletroacordes que tem à frente Rodrigo Vizzotto. O grupo transita pela música eclética plugada nas origens do blues, jazz, pop rock, psicodélico e anos 70. A outra atração foi o jornalista e cantor Christian Bueller (voz e violão) que transita, igualmente, por diferentes estilos musicais. Entre os convidados para esta atividade lúdica, na qual desempenhou o papel de apresentador, esteve o jornalista Juarez Fonseca, crítico musical, pesquisador da música brasileira e há 50 anos associado do Sindjors.

 

 

Abertura do seminário contou com representações do mundo do trabalho do país e da América Latina

Com as saudações e reflexões da presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj e integrante do Comitê Executivo da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Maria José Braga, de Zuliana Lainez , vice-presidenta da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), presidenta da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe (Fepalc), secretária geral da Associação Nacional de Jornalistas do Peru (ANP), Editora de Opinião do diário digital Crônica Viva e professora universitária da Disciplina de Direito à Informação, ambas seguidas por Antônio Ricardo Malheiros, presidente do Sindicato dos Radialistas do Rio Grande do Sul com passagens em diferentes veículos de comunicação, entre eles RBS TV e, atualmente, integra a equipe do Canal Rural.

 

 

Também participaram: José Nunes, presidente da Associação Riograndense de Imprensa – ARI, e também vice-presidente da Regional Sul da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em seu segundo mandato; e Amarildo Pedro Cenci, diretor do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) e presidente da Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul. Encerrando as falas, Beth Costa, que integra a direção da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Ela também é coordenadora do Fórum Nacional da Democratização da Comunicação (FNDC). Vera Daisy Barcellos Costa, presidenta do Sindjors, também integrou a mesa de abertura do Seminário.

 

Representações da ONU recolocam a relevância dos direitos humanos e das diversidades

O primeiro painel do Seminário – Jornalismo, Direitos Humanos e Diversidade – ainda no dia 27/9 – foi mediado pela diretora do Sindjors Eliane Silveira e teve como relator Adroaldo Bauer Corrêa, integrante do Conselho Fiscal do Sindicato.

 

 

O evento reuniu a jornalista gaúcha, Mestra e Doutora em Comunicação, Isabel Clavelin. Ela é assessora de comunicação da ONU Mulheres há dez anos, sendo responsável pela gestão de plataformas digitais e redes sociais, campanhas públicas, parcerias em comunicação, divulgações e relacionamento com a imprensa nacional e internacional. Como jornalista é filiada ao Sindjors, colaborando com o Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros.

 

Ao seu lado, esteve o tcheco Jan Jarab, que está à frente, desde novembro de 2019, do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos na América Latina com sede em Santiago do Chile. Os dois painelistas salientaram a importância do evento em trazer a discussão sobre os direitos humanos como ponto vital, não apenas no plano individual, mas em todos os aspectos do viver populacional do mundo e, em especial, da categoria dos jornalistas.

 

O representante do Alto Comissariado das Nações Unidas enfatizou sua grande preocupação com as constantes violações dos direitos humanos e ataques físicos os/às jornalistas no Brasil e países das Américas. Jan Jarab apresentou como destaque negativo o México, que lidera os indicadores mundiais, como o país que mais agride e mata os profissionais da Imprensa, ficando atrás, de acordo com relatórios, da Síria.

 

Já a jornalista Isabel Clavelin trilhou pelas inúmeras cartas e históricas conferências da ONU que validaram os direitos das mulheres de diferentes etnias e, igualmente, de enfrentamento ao racismo e outras discriminações. Ainda em sua fala, Isabel Clavelin pontuou o machismo, o sexismo e o racismo como fator devastador no viver das mulheres, em especial da população feminina negra e das mulheres jornalistas. Enfática, ela situou o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul no qual, “ao longo da sua história, já perto dos seus 80 anos, o racismo e o sexismo vêm sendo determinantes, tendo apenas uma mulher branca, nos anos de 1980, e uma negra, atualmente, à frente de sua direção”.

 

Um dos pontos apresentados pela mediadora Eliane Silveira teve como destaque a informação de que o Sindjors integra o comitê popular contra as privatizações que vêm ocorrendo no Rio Grande do Sul, em especial a da Companhia Rio-grandense de Saneamento – Corsan. A mediadora trouxe a reflexão de colocar esta disposição da população gaúcha de se mobilizar pelo “direito à água”, porque a água é um bem público e é, portanto, um direito humano da população.

 

Informação que encontrou ressonância na resposta de Jan Jarab que trouxe a negativa lembrança do governo do ditador chileno, Augusto Pinochet (1974-1990), época em que se deu o processo da privatização das águas, do saneamento básico e da previdência social pelo capital privado. Mecanismo que geraram e geram, ainda hoje, sérias consequências para a população chilena e que vêm sendo acompanhadas de perto pelo Alto Comissariado das Nações Unidas ao destacar que o acesso à água potável é “um direito humano fundamental”.

 

Novas tecnologias não superam o saber humano, mas preocupam

A temática do segundo dia do Seminário Internacional – 28/9 – abordou “Os Caminhos do Jornalismo frente às Atuais Condições de Trabalho e às novas Tecnologias”. Mesa de intenso compartilhamento de saberes e ofertas de mecanismos para enfrentar a quarta revolução industrial na qual a robótica se apresenta com intensa velocidade no mundo do trabalho.

 

 

O painel reuniu a jornalista e escritora, mestra Mônica Cabañas, terapeuta com formação ericksoniana e programação neurolinguística (PNL) e doutoranda em Desenvolvimento Integral e Consciente; o Oficial Nacional e Coordenador da Área de Geração de Conhecimento para a Promoção do Trabalho Decente do Escritório da Organização Internacional do Trabalho – OIT – no Brasil, José Ribeiro; e o sindicalista Antônio Lisboa, Secretário de Relações Internacionais da CUT; representante dos trabalhadores do Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mandato 2020/2024.

 

Mônica Cabanãs fez uma análise sobre como as grandes crises mundiais afetaram as organizações, indivíduos e grupos. Segundo ela, “todos numa crise são afetados psicologicamente”. Para a jornalista, as pessoas custam a dar-se conta de quando passaram do limite das condições físicas e mentais de desenvolver o seu trabalho. “E isto tem um forte impacto no trabalho, especialmente com perda de produtividade”. Após uma crise como a pandemia da Covid-19, o foco das políticas públicas deve ser no humano, como o fortalecimento de políticas de mercado de trabalho.

 

Já o Oficial Nacional e Coordenador da Área de Geração de Conhecimento para a Promoção do Trabalho Decente do Escritório da Organização Internacional do Trabalho – OIT – no Brasil, José Ribeiro, fez um rápido relato sobre sindicatos e sindicalização, mostrando o esvaziamento das entidades que representam os trabalhadores no Brasil, em especial na área do Jornalismo.

 

Ribeiro aponta a necessidade de revitalização dos sindicatos. Ao mesmo tempo, também levantou a importância da conciliação do tempo de trabalho dispendido “já que o trabalho digno, especialmente em tempo de trabalho remoto, tem relação direta com a saúde do trabalhador”. Com o advento da pandemia do Covid-19, os desdobramentos e impactos foram muito rápidos. Antes o teletrabalho era esporádico e se traduzia em benefícios. O impacto e rapidez das mudanças na pandemia desmitificaram o trabalho ideal. De acordo com o representante da OIT, “os profissionais passaram a estar sempre disponíveis, trabalhando com seus equipamentos e recursos, e hoje a questão que está posta é como enfrentar os desafios que estão aí, em especial, a fadiga da tela”.

 

O representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho (OIT) José Lisboa afirmou que “ainda temos que aprender, e muito, sobre os avanços da tecnologia”. Em sua avaliação, “o que a gente consegue ver neste momento é o consenso de que a pandemia acelerou processos, especialmente sobre as relações laborais e as formas de trabalho”.

 

José Lisboa, no entanto, lembra que os avanços tecnológicos conquistados no mundo do trabalho representam uma grande contradição, pois ao mesmo tempo que trazem mais produtividade, aumentam o tempo de trabalho. Para ele, esta é uma equação desequilibrada e globalizada. O representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da OIT avalia que a tendência “é levar ao fortalecimento do trabalho desregulado (economia dos bicos), do trabalho precário, por demandas e multifuncionais. O mundo está saindo pior do que entrou na pandemia. Não há sinal de que haja um movimento dos líderes mundiais para melhorar esta situação”.

 

A inteligência artificial domina o mundo jornalístico

Na quarta-feira (29), foi a vez de debater o Novo Sindicalismo e os Desafios para o Futuro. Com mediação de Katia Marko e relatoria de Carla Seabra, diretoras do Sindjors, a presidenta de Fenaj, Maria José Braga; a escritora e professora do Núcleo Piratininga de Comunicação, Claudia Santiago; o professor universitário e sociólogo, Clemente Ganz Lúcio; e Claudir Nespolo, ex-presidente da CUTRS e diretor da CUT Brasil, formularam questões importantes a respeito do sindicalismo em tempos difíceis de pandemia e de (des)governos que só fizeram retirar direitos dos trabalhadores.

 

 

A presidenta da Fenaj, citando Riegel, deixou claro seu posicionamento sobre o futuro do sindicalismo. Para ela, os fundamentos do movimento sindical apontam para organização e formação, com a conscientização da classe trabalhadora. Disse, ainda, que é preciso voltar às origens e redescobrir o papel social e político que os sindicatos devem assumir no país, diante do corte de direitos e do enxugamento do mercado de trabalho. “É o nosso grande desafio, aglutinar toda a categoria”. O professor Clemente complementou, dizendo que as decisões tomadas, o tempo todo, impactam a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. “Temos microjornadas e, por outro lado, jornadas extensas; jornalistas estão sendo substituídos por Inteligência Artificial”, lamentou. De acordo com ele, o mundo do trabalho está imerso em transformações que exigem uma nova resposta organizativa e de lutas do movimento sindical.

 

Claudir Nespolo, ex-presidente da CUTRS, lembrou o golpe contra a presidenta Dilma e que, desde então, os governos que se sucederam só fazem cortar direitos dos trabalhadores. E o alvo são as férias remuneradas. De acordo com o diretor da Central nacional, para atingir o trabalhador, os governos atacam os sindicatos, que estão sem dinheiro, com problemas de sobrevivência. Mas a chegada da covid-19, alertou Nespolo, fez com que os profissionais se dessem conta da importância dos sindicatos para a manutenção de direitos. Já a Cláudia Santiago alertou que o desafio dos sindicatos é falar com a população, falar com as bases, debater os problemas que interessam à classe como um todo. Os demais desafios são os já apresentados pelos debatedores. Ela acredita que “não temos que reinventar nada, temos só que retomar, como disse Zequinha (Maria José Braga), o nosso propósito histórico, a parte que nos cabe neste latifúndio”.

 

As tragédias na Amazônia, nas favelas e a mudança climática

O painel “Enfrentando as crises e contingências: a mudança climática e o papel do jornalismo” encerrou o Seminário Internacional promovido pelo Sindjors na manhã de quinta-feira, 30 de setembro. Atuou na relatoria a jornalista Vera Spolidoro, presidenta da Comissão Estadual de Ética do Sindjors, e o também jornalista, integrante da CEE e ativista do movimento ecológico, Ulisses Nenê, que atuou na mediação do encontro.

 

 

O evento contou com as participações da fotógrafa Elza Lima, que desde 1984 registra espaços amazônicos e suas tragédias ambientais, e que atualmente desenvolve pesquisas junto às pescadoras do Porto do Milagre em Santarém; de Eloisa Beling Loose, jornalista, professora, pesquisadora, consultora, diretora de Comunicação do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS) e pesquisadora no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden; de Gizele Martins, jornalista, escritora, oriunda da Favela do Maré, Rio de Janeiro, Mestra em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ-Febf); e de Helena Palmquist, jornalista, com mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Pará, e assessora de comunicação do Ministério Público Federal no Pará desde 2004.

 

As palestrantes trouxeram dados sobre a baixa cobertura pela imprensa tradicional às mudanças climáticas, fato verificado não só no Brasil. Conforme pesquisa apresentada pela professora Eloisa Beling Looseos, os meios de comunicação na América Latina dedicaram ao tema, em 2020, 1,3% de suas editorias.

 

As jornalistas abordaram a importância de contextualização do problema e de sua transversalidade, fatores não inclusos pelos profissionais na maioria das matérias veiculadas. “Quando se fala em estrada no meio da floresta amazônica, mostram só caminhões atolados”, enfatizou Helena Palmquist, referindo-se ao fato de as abordagens restringirem-se ao aspecto econômico. “O Jornal Nacional fez ontem [29/9] uma matéria sobre o linhão Manaus-Boa Vista. Dois terços dos índios morreram por ataque a bomba do Exército Brasileiro na abertura da BR-174, durante a ditadura militar – isso que estou falando não é segredo, tem documentação, tem relatório. Agora, o governo atropelou a consulta para a licença-prévia, liberada ontem. É uma área que mesmo em governos democráticos permanece sobre ataque do Estado, e não se lembra [na reportagem] do genocídio sofrido pelos indígenas nesse território”.

 

A discussão sobre as mudanças climáticas foi permeada pelo registro fotográfico, desde a década de 1980, de Elza Lima, denunciando o caos da devastação dos rios e da floresta amazônica. “Mais de trinta anos se passaram e a situação que já estava ruim naquela época está cada vez pior”, enfatizou a fotógrafa.

 

Por outra perspectiva, Gizele Martins relatou o problema ambiental na periferia, mais precisamente no Complexo das Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, onde reside. Para a jornalista, que se dedica à comunicação comunitária, a cobertura dos veículos tradicionais é reducionista e preocupada apenas com a violência e as mortes pelo tráfico. “Sabemos o quanto sério é este problema, mas não é o único. A mídia não vai além. Não consegue, ou melhor, não quer enxergar os problemas sociais, a fome, os adoecimentos e os impactos da Covid-19 na vida de quem lá mora. Emocionada, Gizele destaca o racismo ambiental e a situação da variada população: a maioria dos moradores da favela tem cor e é preta por outro lado lá, também, estão os brancos, e isto conduz a uma constatação de que “falta um jornalismo que paute a favela sem criminalizá-la”.

 

Texto com a colaboração de Fabiane Christaldo, Mônica Cabañas, Thaïs Bretanha, Carla Seabra e Vera Daisy Barcellos. Artes de Niara de Oliveira

 

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Cadastrada em 05/10/2021